Os cadernos-diários de Anita Malfatti - Roberta Paredes Valin

"Este trabalho tem por objetivo analisar os cadernos de desenho da artista brasileira Anita Malfatti que remetem à sua estadia em Paris, entre 1923 e 1928, pelo Pensionato Artístico de São Paulo, todos salvaguardados pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. A partir do mergulho nas muitas páginas desenhadas do universo íntimo da criação da artista, outros objetivos puderam ser alcançados. Primeiramente, a pesquisa retomou o debate acerca dos rumos da produção de Anita Malfatti pós 1917, compreendendo esse período como uma espécie de laboratório experimental sob a luz de um “particular Retorno à Ordem”, que antecede o que faria anos mais tarde em Paris. Em seguida, a pesquisa buscou reconstruir a trajetória da artista na capital francesa, recuperando sua passagem pelas academias e ateliês de arte, percurso esse fundamental para compreender sua produção pictórica no período em questão. Não obstante, uma análise mais aprofundada, no que aqui definimos como seus cadernos-diários da criação, possibilitou compreender suas principais obras, especificamente, A Mulher do Pará, La rentreé, Puritas e Ressurreição de Lázaro, a partir do diálogo com os esboços das próprias neles presentes. No que concerne à tela Ressurreição de Lázaro, a pesquisa reconstruiu seu trajeto de criação através da articulação de uma documentação de cunho pessoal, não só os cadernos de desenho, objeto de estudo desse trabalho, como sua correspondência com o escritor Mário de Andrade, e uma série de fotografias de pinturas célebres italianas tiradas pela própria artista, importantes referências do Trecento e Quattrocento italianos para o seu trabalho em Paris. Essa obra, contudo, por ser vista como obra-tese para o final do estágio, ganha um espaço importante nesse trabalho, uma vez que é definida como seu grande projeto pictórico, cujo início se dá ainda no primeiro ano em que a artista por lá esteve e sua finalização no mesmo ano de seu retorno ao Brasil. Deste modo, trata-se de uma pesquisa que busca compreender as obras da década de 1920 da artista à luz do seu processo de criação, cujos registros testemunham o percurso complexo do vir a ser das pinturas em que a artista dialoga conscientemente com a vanguarda e a tradição. " (Resumo da dissertação de mestrado de autoria de Roberta Paredes Valin).

Diário de Anita Malfatti retrata o início de sua carreira

“Trinta de maio foi sábado e dele só me lembro quando ao lusco-fusco apareceu Freitas Valle com todos seus satélites, sendo os principais Zadig e Elpons (…) quando mamãe perguntou se ele gostava do retrato de Georgina, disse ele – Minha senhora, não se ofenda se sou franco, mas esse quadro está crivado de erros, o desenho é fraco e é um carnaval de cores. O valor artístico não tem nenhum.”  (Matéria interessantíssima publicada no jornal da USP do dia 08/03/2017)

Mario de Andrade e a literatura epistolar

"Pós-Modernidade: tempo da velocidade, da imagem, da linguagem cifrada da comunicação digital. O que levaria uma jovem a interessar-se pela leitura de cartas manuscritas trocadas entre artistas (escritores e pintores), nas primeiras décadas do século XX? Talvez, quem sabe, a descoberta e o prazer, propiciados pela leitura, de voltar no tempo, um tempo marcado pelas mudanças trazidas pela modernidade: a luz elétrica, o bonde, as novas avenidas, os primeiros cafés." (Texto integral do artigo assinado por Ana Carolina Simões Fatecha, Sandra Maria Costa Cardoso e Verônica de Almeida Soares). Leitura recomendável

A revolução de Mario de Andrade

"Um país é especialmente contraditório quando dá as costas para aqueles que mais o defendem. Mário de Andrade fez muito pelo Brasil, mas foram necessárias sete décadas de ausência sua para que começássemos a fazer jus à sua suculenta obra artística e ao seu valioso legado de gestor cultural, ainda tão pouco analisado. Esse lapso por fim se vê ameaçado em 2015, ano em que se celebram os 70 anos de sua morte, com uma série de homenagens e conteúdos que pretendem jogar luz sobre sua marca modernista e também sobre sua trajetória pessoal." (Trecho da matéria publicada no jornal El País/Brasil, em 10 Maio 2015)

Lançamento do livro “Celso Furtado - Correspondência intelectual 1949-2004”


Rosa Freire d’Aguiar, Luiz Felipe de Alencastro e Paulo Nogueira Batista no encontro virtual para o lançamento do livro que reúne cartas de Celso Furtado com vários interlocutores brasileiros e estrangeiros (14 Abr. 2021).

"Além dos mais de trinta volumes em que se dedicou a compreender e interpretar a história econômica brasileira, Celso Furtado deixou cerca de 15 mil cartas em seu acervo pessoal. Organizada numa seleção inédita, a correspondência revela não apenas seu dia a dia como professor e pesquisador, mas também um diálogo efervescente de ideias com outras figuras de proa da época, com quem Furtado dividiu reflexões sobre o desenvolvimento do Brasil e da América Latina, afinidades e discordâncias teóricas, e as angústias decorrentes do golpe militar de 1964.

Classificadas entre interlocutores brasileiros e estrangeiros, e ora agrupadas em eixos temáticos, as quase trezentas cartas vêm acompanhadas de textos introdutórios e de um rico aparato de notas, que contextualizam os personagens e eventos históricos. O resultado é uma janela singular tanto para a vida e a obra do autor de Formação econômica do Brasil como para as discussões intelectuais que pautaram o mundo pós-Segunda Guerra Mundial."

Celso Furtado: "Obra autobiográfica", resenhado por Alfredo Bosi


 













Trecho da resenha para o livro Obra autobiográfica, assinada pelo Professor Alfredo Bosi, publicada originalmente na Folha de São Paulo em 08 Nov. 1997 e republicada recentemente no site A terra é redonda.

Encontro com a História em casa - Correspondência Intelectual de Celso F...


"Para contar algumas reflexões do economista e levar alguns de seus pensamentos às novas gerações, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) abre a série Encontros com a História em Casa de 2021 com a live de lançamento do livro Correspondência Intelectual de Celso Furtado. O evento acontece no dia 15 de abril e conta com a participação especial da jornalista e premiada tradutora Rosa Freire D´Aguiar, viúva de Celso Furtado, responsável pela organização dos livros Diários intermitentes de Celso Furtado - 1937-2002 e Correspondência Intelectual de Celso Furtado - 1949-2004, este último, lançado em abril pela editora Companhia das Letras, apresentando a troca de 300 cartas entre o intelectual e diversos políticos, professores e economistas contemporâneos que foram observadores da história da segunda metade do século XX.

Com mediação de Priscila Faulhaber, pesquisadora da Coordenação de História da Ciência e Tecnologia do MAST, o bate-papo também conta com as ilustres presenças do historiador Francisco Carlos Teixeira Da Silva, cientista político e autor de livros sobre conflitos e mudanças sociais, e também da economista Inês Patrício, professora de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e doutora em Ciência Política."

Lançamento do livro que traz a correspondência intelectual de Celso Furtado



"Neste webinar, promovido pela Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), em parceria com a Companhia das Letras, é debatido o lançamento da correspondência de Celso Furtado, selecionada por Rosa Furtado. Os participantes falam sobre a correspondência intelectual de Celso Furtado desde 1949, quando ele entra na Cepal, em Santiago, até 2004, ano de sua morte. Destacam-se as cartas trocadas com Raul Prebisch, Alberto O. Hirschman e Fernando Henrique Cardoso, em momentos críticos da história latino-americana e brasileira."

As cartas de Celso Furtado

 











Foto: UH/Folhapress

Nosso destino é a estupidez, é o titulo da nota do escritor Ruy Castro sobre o livro Celso Furtado - Correspondência intelectual 1949 - 2004, publicada no jornal Folha de São Paulo do dia 25 Abr. 2021.

"
Em 1964, o Brasil ficou impossível para Celso Furtado --- que os outros países, agradecidos, acolheram."

Paul Singer - a democracia levada ao limite










Paul Singer (1932/2018)

Foto: Wikimedia Commons 

Abaixo, um trecho da nota sobre o documentário Paul Singer: uma utopia militante,realizado pelo cineasta Ugo Giorgetti, publicada no Jornal da USP.

“Ele foi um socialista próximo da social-democracia e isso me interessa muito”, continua Giorgetti, para quem Singer pode ser considerado um homem de ação que procurou fazer o possível, sem guiar-se por uma utopia, enquanto levava ao limite a ideia de democracia. “É uma coisa que veio da Revolução Francesa: igualdade, fraternidade e liberdade. Se você não tem uma das três, você não é democrata e também não é de esquerda. Porque a esquerda é isso – levar a democracia ao seu limite.” 

No final do 26° Festival É Tudo Verdade


A cineasta brasileira Petra Costa entrevista 
Alexander Nanau,diretor do documentário Collective.
18 Jan. 2021

Lembrando do Abbas Kiarostami em São Paulo



    Abbas Kiarostami - 1940/2016.  Foto: Google

Uma boa boa cidadã
"São cerca de 5h da tarde, e as ruas estão cheias. Pessoas que voltam do trabalho. O trânsito é intenso e o sol de primavera em breve vai se pôr, no fim da avenida. Está tão quente que parece verão, e talvez seja esse calor prematuro o que convida essa gente bonita a sair para dar as boas-vindas à estação que nem se iniciou. Sua beleza particular e seu jeito de andar, também particular, atraem a atenção. E, em meio à multidão, destacam-se rostos marcantes, incomuns.

O rosto de um menino cuja aparência não esconde sua condição de criança de rua é, ao mesmo tempo, diferente e atraente. Seus olhos estão cobertos por um boné de croché preto. Não se pode vê-los. Ele está usando um short preto velho e cheio de buracos sobre uma calça branca enfiada em meias com padrões amarelos. Nos pés, sapatos de algodão cor-de-laranja. O menino carrega no ombro uma bolsinha branca com uma leveza tal que parece que ela está cheia de ar. Ele se move com determinação e auto-confiança. Sua aparência, seu jeito de vestir e de andar me levam a segui-lo. Lembre-se de que não tenho nada para fazer e quero matar o tempo."
(Trecho de um artigo em que o diretor iraniano 
Abbas Kiarostami narra um de seus passeios pela avenida Paulista em 1994, quando ele estava em São Paulo Mostra Internacional de Cinema.  Folha de São Paulo. Caderno Mais!  11 Jan. 1998).

"A última floresta", "A última nação indígena"










A nota do crítico José Geraldo Couto, publicada na Conexão planeta e no blog do IMS, sobre o filme de Luiz Bolognesi, A última floresta. A nota e o filme são altamente recomendáveis.

"Kafka y la muñeca viajera" - Jordi Sierra i Fabri

"En 1923, viviendo en Berlín, Kafka solía ir a un parque, el Steglitz, que todavía existe. Un día encontró a una niñita llorando, porque había perdido su muñeca. Kafka inventó al instante una historia: la muñeca no estaba perdida, sólo se había ido de viaje, para conocer mundo. Y le había escrito a su dueña una carta, que él tenía en su casa y le traería al día siguiente. Y así fue: esa noche se dedicó a escribir la carta, con toda seriedad. (Dora Diamant, que cuenta la historia, dice: "Entró en el mismo estado de tensión nerviosa que lo poseía cada vez que se sentaba a su escritorio, así fuera para escribir una carta o una postal"). Al día siguiente la niña lo esperaba en el parque, y la "correspondencia" prosiguió a razón de una carta por día, durante tres semanas. La muñeca nunca se olvidaba de enviarle su amor a la niña, a la que recordaba y extrañaba, pero sus aventuras en el extranjero la retenían lejos, y con la aceleración propia del mundo de la fantasía, estas aventuras derivaron en noviazgo, compromiso, y al fin matrimonio e hijos, con lo que el regreso se aplazaba indefinidamente. Para entonces la niña, lectora fascinada de esta novela epistolar, se había reconciliado con la pérdida, a la que terminó viendo como una ganancia." (fragmento do artigo do escritor argentino Cesar Aira, publicado no jornal El País/Babelia, em 07 mai. 2004)


 

Alfredo Bosi: "Caminhos entre a literatura e a história"



"A São Paulo do segundo pós-guerra já não era aquela cidade ítalo-brasileira dos anos de 1920 que os modernistas cantaram e contaram. Mas, desprezando solenemente as cautelas didáticas e apostando tudo na palavra do filósofo e na força maior da nossa ânsia de aprender, o professor Ítalo Bettarello abria o seu curso lendo o período inicial da Aesthetica in nuce de Benedetto Croce: Se si prende a considerare qualsiasi poema per determinare che cosa lo faccia giudicar tale, si discernono allá prima, costanti e necessari, due elementi: un complesso d’immagini e un sentimento che lo anima." (Texto publicado no site A Terra é Redonda em 12 Abr. 2021.  Foto: Lili Martins - 18.mar.99/Folhapress/Folha de São Paulo/09 Abr. 2021) 

Alfredo Bosi: "Cultura brasileira: tradição contradição"

"Se nós queremos, ao contrário, construir uma sociedade democrática, acho que, nesse particular, devemos repensar a fundo o conceito de cultura e destruir em nosso espírito ou, pelo menos, relativizar fortemente a ideia de que a cultura é uma soma de objetos. Porque os objetos, considerados “em si”, os quadros, os livros, as estátuas, ocupam um determinado lugar no espaço, eles são sempre o outro. Por mais que eu contemple este quadro, na medida em que eu o considere como um fato, como um objeto fora de mim e fora do meu convívio, eu olharei para ele um pouco como um crente olha para o fetiche. É a ideia do fetichismo. É alguma coisa que eu não entendo, não vou entender nunca, e aliás é até muito bom que eu não entenda, porque isso dá ao objeto um mistério, um fascínio, uma magia, que se distancia de mim e faz com que eu o reverencie, como alguma coisa que eu não vá nunca alcançar."

(fragmento do texto de uma palestra do Professor Alfredo Bosi, publicado originalmente no site Arte Pensamento - IMS (1987) e no site A Terra é Redonda,em 
09 Abr. 2021)

Para Nivaldo Santiago, In Memoriam

Poema da despedida (Mia Couto)
"Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo."

 

Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999. Fonte: Prosa e Poesia em Língua Portuguesa (grupo público) 

Programa Roda Viva (TV Cultura)

Entrevista com Contardo Calligaris, em 13 Fev. 2017

Contardo Calligaris (1948-2021)

Contardo Calligaris

Meu vizinho genocida

Contardo Calligaris

"Escrevi minha tese de doutorado de 1980 a 1991. No fundo, trata-se de um longa meditação sobre a ideia central de Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras).

Por isso, era inevitável que eu corresse para ver o filme de Margarethe von Trotta, que acaba de estrear, “Hannah Arendt”. Tanto mais que ele narra especificamente os anos da vida de Arendt em que ela assistiu ao processo de Eichmann e relatou sua experiência para os leitores da revista “The New Yorker” (e, logo depois, no livro que citei).

Os artigos foram recebidos por uma salva de injúrias e ameaças. Mas, quando eu me interessei pela questão, a ideia de Arendt em “Eichmann em Jerusalém” já era universalmente aceita no campo dos “Holocaust Studies”. Nota: a palavra “holocausto” evoca para mim um sacrifício, como se as mortes pudessem ser algum tipo de expiação; por isso, prefiro a palavra genocídio, que diz a verdade sobre a intenção dos assassinos.

Mas vamos por partes. Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS, foi responsável pela logística do genocídio dos judeus pela Alemanha nazista. Em 1960, enquanto vivia escondido na Argentina, Eichmann foi capturado pelo Mossad israelense e levado a Jerusalém para ser processado.

Nessa altura, Arendt já tinha publicado há tempos (em 1951) seu “Origens do Totalitarismo” (Companhia das Letras). Fato extraordinário para a época, Arendt examinava os totalitarismos do século 20 levando stalinismo e nazismo para um mesmo tribunal. Ela encontrava as origens do totalitarismo do século 20 no imperialismo colonialista e no racismo (ideias, convicções, tanto das elites como dos povos) .

Pois bem, dez anos mais tarde, Arendt saía do processo de Eichmann pensando diferente: as convicções (por exemplo, antissemitas) dos funcionários do regime não bastavam para explicar o que os tinha transformado em assassinos genocidas, e o totalitarismo tinha sido possível não graças aos entusiasmos ideais de sua tropa, mas, ao contrário, graças a personagens quaisquer e banais, facilmente dispostos a abdicar sua faculdade de pensar.

Eichmann era um pateta –os filmados do processo, que o filme mostra, são extraordinários para sentir a desproporção entre o tamanho do crime e a mediocridade do criminoso. Preferiríamos que ele fosse um exaltado ou um monstro: sua loucura explicaria o horror de seus atos e o manteria solidamente afastado da gente, diferente de nós. Mas Eichmann não era um monstro, era o vizinho do apê ao lado.

Isso constitui uma desculpa? Ao contrário, aos meus olhos (e aos de Arendt também, acredito), a banalidade do assassino constitui uma agravante.

O vizinho alega as ordens, a ordem ou a fidelidade a qualquer grupo que seja, tudo porque quer parar de pensar: essa é sua culpa original e mais grave, graças à qual ele se torna capaz de agir como se não existissem considerações morais. De fato, ele quis sobretudo deixar de dialogar com sua consciência.

Talvez em 2015 eu publique minha tese. Fiquei a fim de explicar este fato um pouco assustador: há algo na dinâmica de nossa subjetividade normal que faz com que parar de pensar seja uma tentação constante, como se qualquer desculpa (ideológica, por exemplo) fosse boa para fugir da solidão, que é a condição do diálogo moral de cada um com sua consciência.

O coletivo (a nação, o partido, o sindicato, a torcida, a gangue, o grupo adolescente de amigos, a própria família) não oferece apenas ideologias e desculpas: ele fornece uma função para cada um de seus membros. Com isso, não preciso pensar para decidir minha vida –preciso apenas preencher minha função. É bom o que é funcional ao grupo -ruim, o que não é.

Qualquer crepúsculo do indivíduo é um crepúsculo da moral. Pensemos nisso, por favor, quando torcemos, agitamos bandeiras ou falamos, misteriosamente, na primeira do plural.

Minha tese tinha o título “A Paixão de Ser Instrumento”. Ela perguntava: por que a ideia de se transformar em instrumento (abdicando a subjetividade da gente) teve e continua tendo tamanho sucesso?

Para qual razão psíquica fundamental teríamos todos uma predisposição a sermos seres estúpida e covardemente coletivos? Por que preferiríamos ser funcionários do horror a conviver com as incertezas cotidianas do juízo moral? A resposta não cabe aqui. Mas a questão não envelheceu."

(Publicado na Folha de São Paulo em 18/07/2013. Foto: n/i)

Thiago de Mello, 95 anos


 





Os Estatutos do Homem
  
Artigo Primeiro

Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo Segundo

Fica decretado que todos os dias da semana,  inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo Terceiro

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito  a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo Quarto

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único

O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo Quinto

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. 

 

Artigo Sexto

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo Sétimo

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha  sempre o quente sabor da ternura.

 

Artigo Oitavo

Fica permitido a qualquer  pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo  Nono

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

 

Artigo Décimo

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

 

Artigo Décimo Primeiro

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais compra o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso  e das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

(Santiago do Chile, abril de 1964, dedicado a Carlos Heitor Cony. Foto: Global Blog )

“A floresta me fez perder muito da convivência com seres admiráveis, entretanto, a distância e o tempo fazem com que cresça a permanência da pessoa dentro de nossa vida.” (Estadão/Cultura/Literatura 30 Mar. 2021)

“Hoje, quem não escolher a utopia corre o risco de cair no apocalipse.” (Estadão Cultura/Literatura - 15 Mar. de 2016)

"Como o uruguaio Mario Benedetti, perseguido, exilou-se. Como o tocantinense Pedro Tierra, foi preso e na noite de solitária escreveu poemas. Como o nicaraguense Ernesto Cardenal, propagou um senso de fraternidade entre os povos da América. Ao lado de Pablo Neruda (que o acolheu em sua Chascona, no Chile), cantou a força e a miséria da gente simples do campo." (Estadão/Cultura/Literatura 15 Mar. 2016)


"Hacer que el instante adquiera permanencia", Sylvia Plath

"Ahora son casi las diez y la mañana sigue virgen, intacta. La sensación que debería levantarme cada vez más pronto para ir por delante del día, que hacia la una del mediodía ya está decidido. Anoche terminé Las olas y me fastidió, casi me enfureció: tanto sol, tantas olas y pájaros. También me sorprendió la disparidad de las descripciones: una frase pesada, de una torpeza horrible, junto a otra fluida, que discurre plácidamente. Pero, al final, la belleza de las últimas cincuenta páginas, tan conmovedoras: el resumen de Bernard, un ensayo sobre la vida, sobre el problema de la insensibilidad de un ser a quien nada puede ocurrirle, que ya no crea, que ha renunciado a combatir el desaliento mediante la creación. Ese instante de iluminación, de fusión, de creación: creamos para combatir la ruina, el olvido de todo, volvemos a crearlo todo y lo creamos plantando cara al fluir: hacer que el instante adquiera permanencia. Esa es la tarea de una vida. No podía parar de subrayar: tengo que releerlo. Debería irme mejor que ella. Nada de hijos hasta que lo haya conseguido. Mi salvación consiste en crear cuentos, poemas, novelas, a partir de mi experiencia: eso explica, o mejor, esa es la razón de que sea bueno que haya sufrido y haya estado en los infiernos, aunque no en todos. No soy capaz de disfrutar la vida por ella misma: solo puedo vivir por las palabras que detienen el fluir. Siento que no viviré mi vida hasta que haya libros y cuentos en los que resucite perpetuamente en el tiempo. Olvido con demasiada facilidad cómo fueron las cosas y me aterrorizan el aquí y el ahora, sin pasado ni futuro. Escribir abre las criptas de los muertos y los cielos tras los cuales se ocultan los ángeles proféticos. La cabeza hace girar y girar la rueca y así va tejiendo su tela."

Sylvia Plath
Diarios, 1957

Traducción: Elisenda Julibert
Editorial: Alba

Fragmento encontrado no blog Calle del Orco


"Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou"

Trailer do documentário dirigido por Bárbara Paz.






Capa do livro Mr. Babenco – Solilóquio a dois sem um. Livro de memórias do cineasta Hector Babenco (1946-2016), organizado por Bárbara Paz. A obra é composta de conversas entre 
Babenco e Bárbara, já no fim da vida do cineasta. Respondendo às  perguntas de Bárbara, Babenco   conta sobre sua infância na Argentina, a descoberta do primeiro câncer e os bastidores de seus filmes. O livro traz também poemas inéditos escritos por Babenco (em espanhol e português) e algumas fotos.
(Editora Nós, 184 págs., 2019)








"La poesía es inconsumible en lo más profundo", um texto de Pasolini

 "Así que vuelvo al ambiente en el que vivo, que es un ambiente que se está acercando a pasos agigantados a la situación general del capitalismo norteamericano. Es cierto, Italia, en los últimos seis o siete años, ha dado pasos gigantescos, más importantes que en sus cien años anteriores, precisamente hacia el neocapitalismo, la industrialización etc., etc. Precisamente esto ha originado mi crisis personal, lo que me ha llevado a pasar de un periodo gramsciano mítico-épico a un periodo digamos que problemático, un periodo que implica -parece extraño- una postura más aristocrática y un trabajo más elitista, más complejo. Ahora bien, tal vez dependa de las circunstancias: en un mundo donde siento que mis destinatarios han cambiado idealmente, en un mundo donde el pueblo, la clase obrera y los intelectuales avanzados ya no constituyen ese público al que me dirijo idealmente, sino que es un mundo mucho más complicado, con un trasfondo de cultura de masas aún indefinible y amenazante, que en Italia todavía no está tan presente, donde la idea de pueblo y de burguesía se están confundiendo de la manera más inaudita, bien, en este momento, es objetivamente posible que, por fuerza, mi yo problemático tenga que hacerse aún más difícil, y, por tanto, tenga que dirigirme a las élites. Sin embargo, en esta operación hay incluso algo voluntario. Este algo voluntario lo expresaré con más claridad si le hablo un momento de teatro.

[…] De todos modos, cerremos este paréntesis y volvamos a las razones personales por las que llegué al teatro. Digamos que fue de manera intuitiva. Después, naturalmente, llegó el momento de la reflexión crítica y entendí esto: que en el fondo yo había elegido teatro porque había decidido hacer algo que, por su naturaleza, por su definición, nunca pudiese convertirse en un medio de masas. Y, de hecho, el teatro no es reproducible. No se puede reproducir, no se puede hacer una serie. Con esto quiero decir que la literatura en Italia, como ya ocurre en los estados más avanzados, empieza a estar amenazada por la industria comercial, por la mercantilización. El cine ya está muy amenazado por esta situación. De hecho, ver la tragedia Teorema para mí representa una angustia continua, pues era una película nacida para ser cine de ensayo, de élite, pero que fue lanzada a la masa, que luego la interpreta, la transforma a su manera que me desmoraliza, que, en fin, me angustia.
Sin embargo el teatro escapa a todo esto, pues, por muy grande que sea el número de espectadores que ve un texto teatral, nunca llegará a coincidir con lo que se denomina “masa”. Lo constituye un público de carne y hueso, un centenar de personas identificables una por una, ante los actores de carne y hueso. Así pues, esta elección del teatro, como medio que nunca podrá ser masa, puede ser paradigma para toda mi obra. Esto vale también para la poesía. La poesía que estoy escribiendo ahora es una poesía desagradable, desapacible, una poesía apenas consumible, también en el sentido exterior del término. Yo sé que la poesía es inconsumible, sé bien que es retórico decir que los libros de poesía también son productos de consumo, porque, por el contrario, la poesía no se consume. Los sociólogos se equivocan en este punto, tienen que revisar sus ideas. Dicen que el sistema se lo come todo, que lo asimila todo. No es cierto, hay cosas que el sistema no puede asimilar, no puede digerir. Una de ellas, por ejemplo, es precisamente la poesía: en mi opinión, es inconsumible. Uno puede leer miles de veces un libro de poemas y no consumirlo. La consumición la sufre el libro, pero no la poesía.
Por tanto, para concluir, sé perfectamente que la poesía es inconsumible en lo más profundo, pero yo quiero que sea lo menos consumible posible también exteriormente. Lo mismo vale para el cine: haré cine cada vez más difícil, más árido, más complicado, y quizá incluso más provocador, para que sea lo menos consumible posible, exactamente igual que con el teatro, que no puede convertirse en un medio de masas, por lo que el texto permanece sin consumir."


Pier Paolo Pasolini

Entrevista con Giuseppe Cardillo

Foto: Pier Paolo Pasolini

Os cadernos-diários de Anita Malfatti - Roberta Paredes Valin

"Este trabalho tem por objetivo analisar os cadernos de desenho da artista brasileira Anita Malfatti que remetem à sua estadia em Paris...