O homem amarelo", de Anita Malfatti


Ele traz uma aguda melancolia no seu olhar vago e distante.
Ainda que se apresente de gravata, seu paletó encontra-se visivelmente degastado e mal ajeitado no corpo contorcido, transpondo os limites da tela, característica comum aos trabalhos da pintora.
Seus olhos escuros são delimitados por contornos pretos, com espessas sobrancelhas em forma de acento circunflexo.
O modelo pintado encontra-se desajeitadamente na tela, que não o acomoda por inteiro, como se ali não o coubesse.
No seu espaço limitado, ele tem as duas mãos eliminadas pelo enquadramento.
Seu torso está inclinado para a sua direita, enquanto a cabeça reclina-se levemente para a esquerda.
Seus braços mostram-se arqueados. A postura de seu corpo deixa à vista sua tensão.
Ele se mostra oprimido.
A ansiedade do homem pode ser sentida através de sua expressão tensa e de seus olhos que perscrutam acima do ombro direito.
Seu rosto, voltado para a direita, deixa à vista apenas uma pequenina parte da orelha do mesmo lado.
As vestes do homem amarelo também revelam a sua apreensão.
Seu paletó está desalinhado, com a lapela direita quase roçando sua bochecha.
A gravata faz uma ligeira curva para a direita, sobre sua camisa branca manchada.
O quadro foi comprado por Mário de Andrade, conforme prometera à artista.
Ele disse: ´Estou impressionado com este quadro, que já é meu, mas um dia eu virei buscá-lo´.” (Interessante descrição do quadro O homem amarelo, 1916, de Anita Malfatti)

Os cadernos-diários de Anita Malfatti - Roberta Paredes Valin

"Este trabalho tem por objetivo analisar os cadernos de desenho da artista brasileira Anita Malfatti que remetem à sua estadia em Paris, entre 1923 e 1928, pelo Pensionato Artístico de São Paulo, todos salvaguardados pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. A partir do mergulho nas muitas páginas desenhadas do universo íntimo da criação da artista, outros objetivos puderam ser alcançados. Primeiramente, a pesquisa retomou o debate acerca dos rumos da produção de Anita Malfatti pós 1917, compreendendo esse período como uma espécie de laboratório experimental sob a luz de um “particular Retorno à Ordem”, que antecede o que faria anos mais tarde em Paris. Em seguida, a pesquisa buscou reconstruir a trajetória da artista na capital francesa, recuperando sua passagem pelas academias e ateliês de arte, percurso esse fundamental para compreender sua produção pictórica no período em questão. Não obstante, uma análise mais aprofundada, no que aqui definimos como seus cadernos-diários da criação, possibilitou compreender suas principais obras, especificamente, A Mulher do Pará, La rentreé, Puritas e Ressurreição de Lázaro, a partir do diálogo com os esboços das próprias neles presentes. No que concerne à tela Ressurreição de Lázaro, a pesquisa reconstruiu seu trajeto de criação através da articulação de uma documentação de cunho pessoal, não só os cadernos de desenho, objeto de estudo desse trabalho, como sua correspondência com o escritor Mário de Andrade, e uma série de fotografias de pinturas célebres italianas tiradas pela própria artista, importantes referências do Trecento e Quattrocento italianos para o seu trabalho em Paris. Essa obra, contudo, por ser vista como obra-tese para o final do estágio, ganha um espaço importante nesse trabalho, uma vez que é definida como seu grande projeto pictórico, cujo início se dá ainda no primeiro ano em que a artista por lá esteve e sua finalização no mesmo ano de seu retorno ao Brasil. Deste modo, trata-se de uma pesquisa que busca compreender as obras da década de 1920 da artista à luz do seu processo de criação, cujos registros testemunham o percurso complexo do vir a ser das pinturas em que a artista dialoga conscientemente com a vanguarda e a tradição. " (Resumo da dissertação de mestrado de autoria de Roberta Paredes Valin).

Diário de Anita Malfatti retrata o início de sua carreira

“Trinta de maio foi sábado e dele só me lembro quando ao lusco-fusco apareceu Freitas Valle com todos seus satélites, sendo os principais Zadig e Elpons (…) quando mamãe perguntou se ele gostava do retrato de Georgina, disse ele – Minha senhora, não se ofenda se sou franco, mas esse quadro está crivado de erros, o desenho é fraco e é um carnaval de cores. O valor artístico não tem nenhum.”  (Matéria interessantíssima publicada no jornal da USP do dia 08/03/2017)

Mario de Andrade e a literatura epistolar

"Pós-Modernidade: tempo da velocidade, da imagem, da linguagem cifrada da comunicação digital. O que levaria uma jovem a interessar-se pela leitura de cartas manuscritas trocadas entre artistas (escritores e pintores), nas primeiras décadas do século XX? Talvez, quem sabe, a descoberta e o prazer, propiciados pela leitura, de voltar no tempo, um tempo marcado pelas mudanças trazidas pela modernidade: a luz elétrica, o bonde, as novas avenidas, os primeiros cafés." (Texto integral do artigo assinado por Ana Carolina Simões Fatecha, Sandra Maria Costa Cardoso e Verônica de Almeida Soares). Leitura recomendável

A revolução de Mario de Andrade

"Um país é especialmente contraditório quando dá as costas para aqueles que mais o defendem. Mário de Andrade fez muito pelo Brasil, mas foram necessárias sete décadas de ausência sua para que começássemos a fazer jus à sua suculenta obra artística e ao seu valioso legado de gestor cultural, ainda tão pouco analisado. Esse lapso por fim se vê ameaçado em 2015, ano em que se celebram os 70 anos de sua morte, com uma série de homenagens e conteúdos que pretendem jogar luz sobre sua marca modernista e também sobre sua trajetória pessoal." (Trecho da matéria publicada no jornal El País/Brasil, em 10 Maio 2015)

Lançamento do livro “Celso Furtado - Correspondência intelectual 1949-2004”


Rosa Freire d’Aguiar, Luiz Felipe de Alencastro e Paulo Nogueira Batista no encontro virtual para o lançamento do livro que reúne cartas de Celso Furtado com vários interlocutores brasileiros e estrangeiros (14 Abr. 2021).

"Além dos mais de trinta volumes em que se dedicou a compreender e interpretar a história econômica brasileira, Celso Furtado deixou cerca de 15 mil cartas em seu acervo pessoal. Organizada numa seleção inédita, a correspondência revela não apenas seu dia a dia como professor e pesquisador, mas também um diálogo efervescente de ideias com outras figuras de proa da época, com quem Furtado dividiu reflexões sobre o desenvolvimento do Brasil e da América Latina, afinidades e discordâncias teóricas, e as angústias decorrentes do golpe militar de 1964.

Classificadas entre interlocutores brasileiros e estrangeiros, e ora agrupadas em eixos temáticos, as quase trezentas cartas vêm acompanhadas de textos introdutórios e de um rico aparato de notas, que contextualizam os personagens e eventos históricos. O resultado é uma janela singular tanto para a vida e a obra do autor de Formação econômica do Brasil como para as discussões intelectuais que pautaram o mundo pós-Segunda Guerra Mundial."

Celso Furtado: "Obra autobiográfica", resenhado por Alfredo Bosi


 













Trecho da resenha para o livro Obra autobiográfica, assinada pelo Professor Alfredo Bosi, publicada originalmente na Folha de São Paulo em 08 Nov. 1997 e republicada recentemente no site A terra é redonda.

Encontro com a História em casa - Correspondência Intelectual de Celso F...


"Para contar algumas reflexões do economista e levar alguns de seus pensamentos às novas gerações, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) abre a série Encontros com a História em Casa de 2021 com a live de lançamento do livro Correspondência Intelectual de Celso Furtado. O evento acontece no dia 15 de abril e conta com a participação especial da jornalista e premiada tradutora Rosa Freire D´Aguiar, viúva de Celso Furtado, responsável pela organização dos livros Diários intermitentes de Celso Furtado - 1937-2002 e Correspondência Intelectual de Celso Furtado - 1949-2004, este último, lançado em abril pela editora Companhia das Letras, apresentando a troca de 300 cartas entre o intelectual e diversos políticos, professores e economistas contemporâneos que foram observadores da história da segunda metade do século XX.

Com mediação de Priscila Faulhaber, pesquisadora da Coordenação de História da Ciência e Tecnologia do MAST, o bate-papo também conta com as ilustres presenças do historiador Francisco Carlos Teixeira Da Silva, cientista político e autor de livros sobre conflitos e mudanças sociais, e também da economista Inês Patrício, professora de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e doutora em Ciência Política."

Lançamento do livro que traz a correspondência intelectual de Celso Furtado



"Neste webinar, promovido pela Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), em parceria com a Companhia das Letras, é debatido o lançamento da correspondência de Celso Furtado, selecionada por Rosa Furtado. Os participantes falam sobre a correspondência intelectual de Celso Furtado desde 1949, quando ele entra na Cepal, em Santiago, até 2004, ano de sua morte. Destacam-se as cartas trocadas com Raul Prebisch, Alberto O. Hirschman e Fernando Henrique Cardoso, em momentos críticos da história latino-americana e brasileira."

O homem amarelo", de Anita Malfatti

" O retratado, segundo Anita, era um homem pobre, excluído e desconhecido, um imigrante italiano que lhe pediu para posar para ela, com...