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26.8.21

Poéticas das cidades 7

El futuro 
Julio Cortázar


Y sé muy bien que no estarás.
No estarás en la calle
en el murmullo que brota de la noche
de los postes de alumbrado,
ni en el gesto de elegir el menú,
ni en la sonrisa que alivia los completos en los subtes
ni en los libros prestados,
ni en el hasta mañana.
No estarás en mis sueños,
en el destino original de mis palabras,
ni en una cifra telefónica estarás,
o en el color de un par de guantes
o una blusa.
Me enojaré
amor mío
sin que sea por ti,
y compraré bombones
pero no para ti,
me pararé en la esquina
a la que no vendrás
y diré las cosas que sé decir
y comeré las cosas que sé comer
y soñaré los sueños que se sueñan.
Y se muy bien que no estarás
ni aquí dentro de la cárcel donde te retengo,
ni allí afuera
en ese río de calles y de puentes.
No estarás para nada,
no serás mi recuerdo
y cuando piense en ti
pensaré un pensamiento
que oscuramente trata de acordarse de ti.

(Poema publicado na revista El buen librero)

Ángela Gurría: a monumentalidade pública






"El recorrer con nuestros cuerpos las plazas y avenidas de una ciudad, monumentos, efigies y esculturas nos interpelan en el espacio público. Producen lugares, generan situaciones de interacción social y construyen memoria."
Texto sobre a artista mexicana  Monclova Ángela Gurría, publicado na revista Letras Libres.
Mais sobre esta artista plástica no site L´OfficielArt

14.8.21

Poéticas das cidades 6

Eu me lembro
Paulo José 

   Referência da foto do ator

“Eu me lembro do meu primeiro encontro com Porto Alegre. A família vinha de Bagé, de carro, era noite. Eu cochilava no banco traseiro. Acordei quando entrávamos na Avenida Borges de Medeiros, ao lado da Avenida Praia de Belas, e aí eu vi imponente, monumental, maior do que a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e a de São Sebastião juntas, mais alto do que a Ponte Seca, mais bonito do que a casa do meu avô, o Viaduto Otávio Rocha. Depois, pela vida afora, vi outros espaços monumentais impressionantes: a Piazza San Marco, em Veneza, o Arco do Triunfo, o Coliseu de Roma, o Parlament House com o Big Ben, mas nenhum deles me fez o coração disparar como aquela visão dos meus oito anos. O Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento.

Eu me lembro que o Pão dos Pobres ficava nas margens do Guaíba, lá onde a cidade acabava. Eu me lembro que a lancheria das lojas Americanas era o ponto chique da cidade. Eu me lembro que tinha até banana split. Eu me lembro que eu sabia de cor todas as transversais da Avenida Independência, do Colégio Rosário à Praça Júlio de Castilhos: Rua Barros Cassal, Rua Thomaz Flores, Rua Garibaldi, Rua Santo Antônio, Rua João Telles. Eu me lembro da Pantaleão Teles, da Cabo Rocha, American Boite, Maipu, Gruta Azul. Eu me lembro do conjunto Norberto Baldauf, da Orquestra Espetáculo Cassino de Sevilha, do Conjunto Farroupilha, dos Quitandinha Serenaders: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda chora...” Lembro da tristeza da minha mãe quando emprestei o violão do meu irmão para um baiano que estava passando uns tempos aqui em Porto Alegre. Eu me lembro que o meu violão nunca mais voltou e que o baiano se chamava João Gilberto.

Lembro do Hino Rosariense. Lembro que Maria Della Costa era garota da capa da revista O Globo, e tinha as pernas mais lindas do mundo. Lembro dos festivais Tom & Jerry nas manhãs de domingo no cinema Avenida, das matinês do Cinema Victória, dos cinemas Rex, Roxi, Imperial, Cacique. Lembro do mezanino do Cinema Cacique, que servia a última novidade em gelados, o Peach Melba. Lembro que todo o mundo detestava os filmes do Cecil B. de Mille, exceto o público.

Lembro que no abrigo dos bondes da Praça XV podia-se beber o caldo da salda de frutas, sem frutas, apenas seus vestígios. Aquela água era néctar dos deuses. Lembro do Vicente Rao, do Bataclan, do brique Ao Belchior, do Senhor Joaquim da Cunha, do Farolito e do China Gorda.

Lembro que pela margem direita eram o Javaí, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu, e pela esquerda o Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jarí. Eu me lembro que meus professores diziam que ensinamentos como esses seriam de grande utilidade para a vida. Lembro do irmão Ary, professor de Biologia, recusando-se a falar da teoria de Darwin: “Quem quiser que descenda do macaco, eu descendo de Adão e Eva”. lembro que ele nos preparava para o vestibular de Medicina. Eu lembro do Pervitin que a gente tomava para passar a noite estudando e tirava nota ruim no dia seguinte.

Lembro do rodouro metálico e seu jato gelado que fazia tudo girar. Lembro do Gin Fizz, do Hi-Fi, do Alexander, da mistura de Coca-Cola com cachaça que levava o nome apropriadíssimo de Samba em Berlim. Lembro do footing da Rua da Praia, onde a gente exibia a camisa volta-ao-mundo, de nylon, e que diziam que iria revolucionar o vestuário masculino. Lembro das calças de brim-coringa farwest.

Lembro que a deusa da minha rua era a Maria Thereza Goulart, que não era ainda Goulart. Ela morava no edifício Glória e recebia visitas misteriosas de um João, este, sim, Goulart, que era invejado por toda a garotada da Barros Cassal.

Eu me lembro do tempo em que futebol se jogava com goleiro, com dois beques, três na linha-média e cinco no ataque e que, em geral, faziam-se gols. Eu me lembro do time do Inter, imbatível, nos anos 50: La Paz, Florindo e Oreco, Paulinho, Salvador e Odorico, Luizinho, Bodinho, Larry ,Jerônimo e Canhotinho.

Eu me lembro de um tempo sem malícia, quando o estádio dos Eucaliptos torcia, gritando em coro: Co-CoColorado, Co-Co-Colorado, Co-Co-Colorado. Eu me lembro do Café Andradas, onde a gente ia matar aula e encontrava o Henrique Fuhro. O Abujamra, que anunciava tragicamente: “O homem é uma paixão inútil!...Mais um café, Macedo”.

Eu me lembro do Bar Matheus, na Praça da Alfândega, da Pavesa, do Treviso, da cadeira pendurada na parede, onde sentou Chico Viola. Da sopa, do mocotó levanta-defunto do mercado Público, do sanduíche9+ 9+ 1 Paulo José discurso quando foi nomeado cidadão... - Anelore Schumann | Facebook aberto do Bar Líder, daquela mostarda amarela do Galeto do Marreta e, por fim, do cachorro-quente da praça do Colégio Nossa Senhora do Rosário, sem favor nenhum, o melhor do mundo.

“O sabonete Cinta-Azul tem o prazer de apresentar um novo filme de caubói Bat Masterson, Bat Masterson”.

“Phimatosan, quando você tossir, Phimatosan, se a tosse repetir”.

“Ela é linda, ah! É noiva, oh! Usa Ponds, Aaah!”.

Eu me lembro do desodorante para privadas Desodor, “Libera o ambiente dos odores estranhos”, do Detefon, do espiral Boa-Noite, da cera Parquetina, da creolina Cruswaldina, do formicida Tatu.

Eu me lembro que o Jeca Tatu tinha verminose, era pálido, maltrapilho, preguiçoso e roubado pelo patrão. E era um herói nacional... Eu me lembro das missas rezadas em latim, dos padres de batina e do seu indisfarçável sotaque da Colônia: “caríssimos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Naquele tempo, vindo Jesus com os seus discípulos”...

Eu me lembro da Glostora, da Antisardina, “O segredo da beleza feminina”, Odorono, Cashmere Bouquet, “O aristocrata dos produtos femininos”, Lisoform Primo, poderoso desinfetante contra frieiras, pé-de-atleta, CC – cheiro de corpo, mau hálito e pós-barba.. Eu me lembro de um perfume da fábrica Colibri, Água de Cheiro Amor Gaúcho.

Eu me lembro de Ildo Meneghetti, o candidato invencível, e me lembro de sua quase absurda honestidade, quando declarou: “Meu maior erro foi ter derrotado Alberto Pasqualini, ele tinha um plano de governo e eu, não”.

Eu me lembro do dia 24 de agosto de 1954. A morte de Getúlio se alastrando pela cidade, incendiando a Rádio Farroupilha, empastelando o Diário de Notícias, destruindo a sede da UDN, depredando tudo que tivesse nome americano: o Consulado, as Lojas Americanas, até a American Boite...

Eu me lembro do P.F. Gastal, criador do Clube de Cinema e que me apresentou a alguns gênios da tela. Um deles, contava Gastal, se apresentou para uma plateia de apenas quatro pessoas, em Berlim, dizendo: “Sou ator de teatro, cinema, escrevo contos, programas de rádio, TV, dirijo filmes, peças, sou ventríloquo, ilusionista, mágico. Pena eu ser tantos e vocês tão poucos. Meu nome é Orson Welles”.

Eu me lembro do Teatro de Equipe, na General Vitorino, do Teatro de Belas Artes, na Senhor dos Passos, e da Confeitaria Atlântica, na Praça Dom Feliciano, ponto de encontro e desencontros dos artistas do Theatro São Pedro. Eu me lembro que nós, Luiz de Matos, Ivete Brandalise, Peréio, Nilda Maria, Mário de Almeida e tantos outros, trabalhávamos como diretores, cenógrafos, figurinistas, maquiadores, contra-regras. Eu me lembro que, às vezes, eu tinha a sensação de que éramos tantos e vocês tão poucos... Mas, eu me lembro que “qualquer prazer me diverte e qualquer china me interte!”

Eu me lembro que a Livraria do Globo era uma loja que vendia livros... Eu me lembro do Loxas, do Janjão, do Sunda... Mas, sobretudo, eu me lembro do Mário, aquele... Eu me lembro que: “Não adianta bater, que eu não deixo você entrar”.

Eu me lembro da Emulsão de Scott, do Calcigenol Irradiado, do Peitoral de Angico Pelotense, da Pomada Minâncora, das Pílulas de Vida do Dr. Ross, “fazem bem ao fígado de todos nós”, do Regulador Xavier, “vive melhor a mulher”, do Pó Pelotense, do vinho reconstituinte Silva Araújo, “V de Vida, R de resistente, S de saúde e A de alegria”. do rum Creosotado e dos reclames dos bondes da Carris: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado, e, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado”.

Eu me lembro, sempre, de não confundir capitão-de-fragata, com cafetão-de-gravata. Eu me lembro que até os craques da locução confundiam “alhos com bugalhos”. Ernani Behs, a máxima voz da Rádio Farroupilha, uma noite anunciou, solenemente: “Transmitindo do alto do Viadeiro Borges de Meduto...”. Eu me lembro que “Bartolo tinha uma flauta, a flauta era do Bartolo, sua mãe sempre lhe dizia: toca a flauta meu Bartolo”. “Coelhinho, se eu fosse como tu, tirava a mão da boca e botava a mão no...”.

Eu me lembro que: “Até a pé nós iremos, para o que der e vier...”. Eu me lembro de que não foi exatamente a pé, mas atravessando o mundo, de avião, que o Grêmio conquistou o Campeonato Mundial de Clubes. Do show de bola do Renato, Mário Sérgio e demais heróis tricolores. “Até o Japão nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos.”

Eu me lembro que: “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”

Eu me lembro do Programa Maurício Sobrinho, do Clube do Guri e de uma caloura que diziam ser a nova Ângela Maria. Eu me lembro que ela morava na zona Norte e se chamava Elis Regina. Eu me lembro de uns versos:

“Elis, quando ela canta me lembra de um pássaro,
Mas não é um pássaro cantando,
Me lembra um pássaro voando”.
Eu me lembro de uns quintanares:
“Olho o mapa da cidade
como quem examinasse
A anatomia de um corpo
(É nem fosse o meu corpo).
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas rua que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando for, um dias desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade do meu andar
(Deste já longo andar!)
E talvez do meu repouso…”

Eu me lembro de que o Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento. Era guri de Lavras, chegando nesta Cidade Grande. Esta cidade que me acolheu. Nela cresci, me fiz homem, aprendi ofício. Devo isso tudo a Porto Alegre. Hoje realizo uma fantasia de adolescência: ser porto-alegrense. Hoje, eu sou um cidadão da cidade que tem o Viaduto Otávio Rocha, orgulhosamente.

Agradeço a homenagem. Eu sempre lembrarei disso, sempre lembrarei, e me lembrarei.

Fonte: Brasil de Fato Porto Alegre. 12 Ago. 2021

11.8.21

Poéticas das cidades 5

 

Bella Buenos Aires (Gregory Ezequiel Kreiner)

Hacia el Sur, los arrabales nos muestran una Ciudad que se niega a subir al tren de la modernidad.
Taitas y guapos aún surcan sus empedrados gastados. En algún bodegón un par de ebrios transitan su enésima resaca.
La Luna es el majestuoso farol que ilumina al caserio con una dosis perfecta.
Y a lo lejos suena un tango de Vargas, que protesta los arañazos asimétricos de alguna pua gastada.



Independencia y Paseo Colón - San Telmo, Buenos Aires
Foto de autor desconhecido
Fonte: facebook.com/groups/182500613173668

2.8.21

Poéticas das cidades 4


   Foto: Revista Prosa Verso e Arte

O tempo nas cidades
"
O tempo pode ser encarado das mais diversas maneiras; eu, como não sou filósofo, repito, apenas vou tomar alguns filósofos como ponto de partida, como ajuda na minha conversa. Eu lembraria, por exemplo, o que li em Baillard, quando ele divide o tempo em três tipos: o tempo cósmico, o tempo histórico e o tempo existencial. O tempo cósmico, da natureza, objetivado, sujeito ao cálculo matemático; o tempo histórico, objetivado, pois a História o testemunha, mas no qual há cesuras, em vista de sua profunda carga humana; e o tempo existencial, tempo íntimo, interiorizado, não externado como extensão, nem objetivado, é o tempo do mundo da subjetividade e não da objetividade. Mas, esses tempos todos se comunicam entre eles, na medida em que o tempo é social. Parafraseando Heidegger, para quem sem o homem não há tempo, é desse tempo do homem, do tempo social contínuo e descontínuo, que não flui de maneira uniforme, que temos de tratar. E é por aí que se vê que esses diversos tipos de tempo convergem e divergem. Convergem na experiência humana e divergem na análise."
(Texto copiado do site da revista Prosa Verso e Arte)

 

22.7.21

Poéticas das cidades 3

    
Tentando entender o entrecruzamento do cinema com a ficção literária, encontrei esta cena bastante  emblemática em um dos episódios da série Onde está meu coração, dirigida por Noa Bressane. Sob os pés desta moça desesperada há uma cidade que não compreende o seu drama pessoal, a cidade espaço da solidão e do desespero individuais. Assistindo, aos poucos e de forma não continuada aos episódios, me senti motivado a refletir, ler, vagarosamente, o fluxo deste bem produzido drama, e esta cena foi, para mim, uma das mais marcantes. Imagem inspiradora, proporciona uma intensa vontade de escrever sobre ela.


  Cristiano Mascaro. Um lugar em São Paulo, à noite.


Estilhaços de São Paulo

Preces. Vidros e ossos partidos. Multas. Dúvidas. Uma porta que se abre. Uma mala que se fecha. Disparos. Sirenes. Dinheiro lançado da janela de um carro. Alarmes. Uma espera aflita. Um tênis novinho na sarjeta. Armas de brinquedo. Uma mulher percebendo que tem classe. Contas. Conversas importantes. Correntes e cadeados. Beijos. Caminhões de mudança. Casas de massagem. Sanduíches/refrigerantes. Resultados de exames dormindo em gavetas. Molhos de chaves. Uma poltrona que passa boiando. Fábricas extáticas. Placas de necessidade. Promessas e frituras. Um homem sobrevivendo aos ferros de seu carro. Alguém implorando pra que Jesus dê as caras. Uma bala perdida. O fim. 

(Fernando Bonassi. Folha de São Paulo. Ilustrada. 07 de julho de 2001) 


O plano diabólico da cidade
















Anteontem era um grupo de homens esburacando a avenida, de madrugada. Hoje é um só golpeando a calçada da esquina com uma picareta, fazendo subir o som de uma tarefa demente. Não, isso não é um trabalho noturno, não venham dizer que é para não perturbar o trânsito do dia, se o dia é feito para essas maçadas no caminho. Pois que seja o dia a engolir mais esse caos sobre caos, esse caos dentro de caos, e nos deixem livres as madrugadas, pelo amor dos nossos nervos, ao menos as madrugadas, para alguma paz sobrevivente, de sangue sem sobressalto, alguma bendita coincidência de silêncio fora e dentro.

Mas não. Agora querem nos tomar também esse espaço, essa chance de respiro, querem meter picaretas e britadeiras na pouca paz das nossas crônicas, e ainda mais, nos nossos sonhos, com esses monstruosos gorgolejos de buracos se abrindo. Será um plano diabólico da cidade para o nosso enervamento? Minha filha me disse outro dia: “mamãe, a cidade está brava com você”. Brava comigo, a cidade? Porque eu não gosto dos seus barulhos. Porque sim, eu me revolto, tenho vontade de gritar para que parem, que nos deixem em paz, que deixem a noite em paz, que vão todos para o olho do dia.

Porque não há razão que explique esse gorgolejar infernal de máquina enchendo o ar da avenida na madrugada. E que não cessa, noite após noite, de uma madrugada a outra. Um homem com uma picareta ou três ou quatro em torno de uma máquina pavorosa dessas, de escavar, perfurar, tremer a terra, e o ar da noite está cheio de catástrofe. É mais um prazer diabólico de estorvar, só pode ser. Um plano diabólico da cidade, para ver se aguentamos, e até onde aguentamos, entre ruas esburacadas e os barulhos de esburacar, onde mais nos refugiaremos, agora que nem as noites nos protegem. Onde?

(Mariana Ianelli. Rascunho - Ilustração: Alfredo Aquino)

(Atualizado em 22/Julho/2021) 

 

20.7.21

Poéticas das cidades 2


"A praça estava nua. Tão irreconhecível ao luar que a moça não se reconhecia. Também Felipe estacara aliviado: malditos! exclamou empurrando o quepe para trás. Sábado era noite de vários mundos: o tenente tossiu transmitindo-lhes sucessivamente a voz sem palavras. As janelas estremeceram ao relincho. Nenhum vento soprava. Apesar da lua a estátua do cavalo em trevas. Via-se, apenas mais nítida, a ponta da espada do cavaleiro suspendendo fulgor parado. O luar imprimira as mil portas mudas nas portas. E a praça se pasmara na postura torta em que tinha sido tocada. Era o mesmo frio reconhecimento de quando se ouvia a clarineta de um cego... As lajes quase reveladas, mal se podia tocá-las com as botinas. A moça bateu mesmo duas palmas... Que se dividiram imediatamente em salva surda — a praça toda aplaudia. Em menos de um segundo as palmas se separaram e uma ou outra foi sufocar-se nos becos indeterminados pela escuridão. A moça escutou um pouco hostil, as duas mãos afinal enterraram com decisão o chapéu na cabeça. Despediu-se de Felipe dizendo-lhe que não convinha serem vistos juntos."

[...]

"O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços. E quando sobre o alegre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque."

Para mim este é um dos mais belos livros da Clarice Lispector. Este título fraquenta a minha memória há longo tempo. Eu o li no tempo em que no Brasil se falava muito em "estado de sítio", tempos de muito tolhimento das liberdades individuais e das proibições de reuniões, mesmo que fosse em pequenos grupos. Para os governantes e seu aparato repressor tudo tinha, nos idos anos de 196..., tudo tinha caráter político e por isso mesmo deveria ser reprimido. Ler Clarice, naquele tempo, ajudava a suportar o sombrio clima das proibições. Esta nova edição dos livros da CL, pela Rocco, traz, em suas capas obras pintadas pela própria autora. Além dos belos textos da Clarice, tem-se, também uma bela galeria.
(Atualizado em 20/Julho/2021)

13.7.21

Poéticas das cidades 1

A partir de hoje, 13 Jul. 2021, uma nova seção (ou novas ruas) será (aberta)incorporada a este blog - Poéticas das cidades, na qual pretendo mostrar e dialogar sobre as confluências, esquinas e cruzamentos entre as artes, a literatura e a filosofia. Quem puder caminhar por estas ruas está, desde logo, convidado. 

Para iniciar esta conversa, algumas construções emblemáticas. 


Edvard Munch. Entardecer em Karl Johan, 1892



A iluminação noturna transfigura a cidade.


[...]

"Ô soir, aimable soir, désiré par celui
Dont les bras, sans mentir, peuvent dire : Aujourd'hui
Nous avons travaillé ! — C'est le soir qui soulage
Les esprits que dévore une douleur sauvage,
Le savant obstiné dont le front s'alourdit,
Et l'ouvrier courbé qui regagne son lit.
Cependant des démons malsains dans l'atmosphère
S'éveillent lourdement, comme des gens d'affaire,
Et cognent en volant les volets et l'auvent.
À travers les lueurs que tourmente le vent
La Prostitution s'allume dans les rues ;
Comme une fourmilière elle ouvre ses issues ;
Partout elle se fraye un occulte chemin,
Ainsi que l'ennemi qui tente un coup de main ;
Elle remue au sein de la cité de fange
Comme un ver qui dérobe à l'homme ce qu'il mange.
On entend çà et là les cuisines siffler,
Les théâtres glapir, les orchestres ronfler ;
Les tables d'hôte, dont le jeu fait les délices,
S'emplissent de catins et d'escrocs, leurs complices,
Et les voleurs, qui n'ont ni trêve ni merci,
Vont bientôt commencer leur travail, eux aussi,
Et forcer doucement les portes et les caisses
Pour vivre quelques jours et vêtir leurs maîtresses."

[...]

Charles Baudelaire, Le crépuscule du soir, in Les fleurs du mal (1857)- Gallimard

"Fais une croix aux quatre fronts des horizons.
Car c’est la fin des champs et c'est la fin des soirs ;
le deuil au fond des cieux tourne, comme des meules,
ses soleils noirs ;
et des larves éclosent seules
aux flancs pourris des femmes qui sont mortes.
à l'orient du pré, dans le sol rêche,
sur le cadavre épars des vieux labours,
domine là, et pour toujours,
plaque de fer clair, latte de bois froid,
la bêche."


Émile Verhaeren, Le Fléau, in 
Les campagnes hallucinées,(1895) Gallimard




Gustav Klimt. Malcesine, 1913




Foto: Flip 2020


É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nela?

Interessantíssimo artigo de autoria de um dos mais importantes pensadores brasileiros, Sergio Paulo Rouanet. Rouanet, profundo conhecedor da obra de Walter Benjamin, é o tradutor do volume I das Obras escolhidas do filósofo alemão, editados pela Brasiliense. O artigo aqui indicado foi publicado na Revista USP no. 15 (1992). Leitura altamente recomendável.





Sobre o conceito de história

Nesta data nascia em Berlim o pensador Walter Benjamin,  autor de uma das mais importantes teorias da história de todo o séc. XX. Em sua homenagem, e em sua memória, segue o link para a tradução que o pensador brasileiro Sergio Paulo Rouanet fez para as  famosas "Teses".

(Atualizado em 15/Julho/2021) 

 




Adiós, Patricio Guzmán (1941-2026)!

       Foto FCEI.CHILE.CL " "Patricio Guzmán: somos lo que recordamos"