Programa Roda Viva (TV Cultura)

Entrevista com Contardo Calligaris, em 13 Fev. 2017

Contardo Calligaris (1948-2021)

Contardo Calligaris

Meu vizinho genocida

Contardo Calligaris

"Escrevi minha tese de doutorado de 1980 a 1991. No fundo, trata-se de um longa meditação sobre a ideia central de Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras).

Por isso, era inevitável que eu corresse para ver o filme de Margarethe von Trotta, que acaba de estrear, “Hannah Arendt”. Tanto mais que ele narra especificamente os anos da vida de Arendt em que ela assistiu ao processo de Eichmann e relatou sua experiência para os leitores da revista “The New Yorker” (e, logo depois, no livro que citei).

Os artigos foram recebidos por uma salva de injúrias e ameaças. Mas, quando eu me interessei pela questão, a ideia de Arendt em “Eichmann em Jerusalém” já era universalmente aceita no campo dos “Holocaust Studies”. Nota: a palavra “holocausto” evoca para mim um sacrifício, como se as mortes pudessem ser algum tipo de expiação; por isso, prefiro a palavra genocídio, que diz a verdade sobre a intenção dos assassinos.

Mas vamos por partes. Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS, foi responsável pela logística do genocídio dos judeus pela Alemanha nazista. Em 1960, enquanto vivia escondido na Argentina, Eichmann foi capturado pelo Mossad israelense e levado a Jerusalém para ser processado.

Nessa altura, Arendt já tinha publicado há tempos (em 1951) seu “Origens do Totalitarismo” (Companhia das Letras). Fato extraordinário para a época, Arendt examinava os totalitarismos do século 20 levando stalinismo e nazismo para um mesmo tribunal. Ela encontrava as origens do totalitarismo do século 20 no imperialismo colonialista e no racismo (ideias, convicções, tanto das elites como dos povos) .

Pois bem, dez anos mais tarde, Arendt saía do processo de Eichmann pensando diferente: as convicções (por exemplo, antissemitas) dos funcionários do regime não bastavam para explicar o que os tinha transformado em assassinos genocidas, e o totalitarismo tinha sido possível não graças aos entusiasmos ideais de sua tropa, mas, ao contrário, graças a personagens quaisquer e banais, facilmente dispostos a abdicar sua faculdade de pensar.

Eichmann era um pateta –os filmados do processo, que o filme mostra, são extraordinários para sentir a desproporção entre o tamanho do crime e a mediocridade do criminoso. Preferiríamos que ele fosse um exaltado ou um monstro: sua loucura explicaria o horror de seus atos e o manteria solidamente afastado da gente, diferente de nós. Mas Eichmann não era um monstro, era o vizinho do apê ao lado.

Isso constitui uma desculpa? Ao contrário, aos meus olhos (e aos de Arendt também, acredito), a banalidade do assassino constitui uma agravante.

O vizinho alega as ordens, a ordem ou a fidelidade a qualquer grupo que seja, tudo porque quer parar de pensar: essa é sua culpa original e mais grave, graças à qual ele se torna capaz de agir como se não existissem considerações morais. De fato, ele quis sobretudo deixar de dialogar com sua consciência.

Talvez em 2015 eu publique minha tese. Fiquei a fim de explicar este fato um pouco assustador: há algo na dinâmica de nossa subjetividade normal que faz com que parar de pensar seja uma tentação constante, como se qualquer desculpa (ideológica, por exemplo) fosse boa para fugir da solidão, que é a condição do diálogo moral de cada um com sua consciência.

O coletivo (a nação, o partido, o sindicato, a torcida, a gangue, o grupo adolescente de amigos, a própria família) não oferece apenas ideologias e desculpas: ele fornece uma função para cada um de seus membros. Com isso, não preciso pensar para decidir minha vida –preciso apenas preencher minha função. É bom o que é funcional ao grupo -ruim, o que não é.

Qualquer crepúsculo do indivíduo é um crepúsculo da moral. Pensemos nisso, por favor, quando torcemos, agitamos bandeiras ou falamos, misteriosamente, na primeira do plural.

Minha tese tinha o título “A Paixão de Ser Instrumento”. Ela perguntava: por que a ideia de se transformar em instrumento (abdicando a subjetividade da gente) teve e continua tendo tamanho sucesso?

Para qual razão psíquica fundamental teríamos todos uma predisposição a sermos seres estúpida e covardemente coletivos? Por que preferiríamos ser funcionários do horror a conviver com as incertezas cotidianas do juízo moral? A resposta não cabe aqui. Mas a questão não envelheceu."

(Publicado na Folha de São Paulo em 18/07/2013. Foto: n/i)

Thiago de Mello, 95 anos


 





Os Estatutos do Homem
  
Artigo Primeiro

Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo Segundo

Fica decretado que todos os dias da semana,  inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo Terceiro

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito  a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo Quarto

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único

O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo Quinto

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. 

 

Artigo Sexto

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo Sétimo

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha  sempre o quente sabor da ternura.

 

Artigo Oitavo

Fica permitido a qualquer  pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo  Nono

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

 

Artigo Décimo

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

 

Artigo Décimo Primeiro

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais compra o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso  e das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

(Santiago do Chile, abril de 1964, dedicado a Carlos Heitor Cony. Foto: Global Blog )

“A floresta me fez perder muito da convivência com seres admiráveis, entretanto, a distância e o tempo fazem com que cresça a permanência da pessoa dentro de nossa vida.” (Estadão/Cultura/Literatura 30 Mar. 2021)

“Hoje, quem não escolher a utopia corre o risco de cair no apocalipse.” (Estadão Cultura/Literatura - 15 Mar. de 2016)

"Como o uruguaio Mario Benedetti, perseguido, exilou-se. Como o tocantinense Pedro Tierra, foi preso e na noite de solitária escreveu poemas. Como o nicaraguense Ernesto Cardenal, propagou um senso de fraternidade entre os povos da América. Ao lado de Pablo Neruda (que o acolheu em sua Chascona, no Chile), cantou a força e a miséria da gente simples do campo." (Estadão/Cultura/Literatura 15 Mar. 2016)


"Hacer que el instante adquiera permanencia", Sylvia Plath

"Ahora son casi las diez y la mañana sigue virgen, intacta. La sensación que debería levantarme cada vez más pronto para ir por delante del día, que hacia la una del mediodía ya está decidido. Anoche terminé Las olas y me fastidió, casi me enfureció: tanto sol, tantas olas y pájaros. También me sorprendió la disparidad de las descripciones: una frase pesada, de una torpeza horrible, junto a otra fluida, que discurre plácidamente. Pero, al final, la belleza de las últimas cincuenta páginas, tan conmovedoras: el resumen de Bernard, un ensayo sobre la vida, sobre el problema de la insensibilidad de un ser a quien nada puede ocurrirle, que ya no crea, que ha renunciado a combatir el desaliento mediante la creación. Ese instante de iluminación, de fusión, de creación: creamos para combatir la ruina, el olvido de todo, volvemos a crearlo todo y lo creamos plantando cara al fluir: hacer que el instante adquiera permanencia. Esa es la tarea de una vida. No podía parar de subrayar: tengo que releerlo. Debería irme mejor que ella. Nada de hijos hasta que lo haya conseguido. Mi salvación consiste en crear cuentos, poemas, novelas, a partir de mi experiencia: eso explica, o mejor, esa es la razón de que sea bueno que haya sufrido y haya estado en los infiernos, aunque no en todos. No soy capaz de disfrutar la vida por ella misma: solo puedo vivir por las palabras que detienen el fluir. Siento que no viviré mi vida hasta que haya libros y cuentos en los que resucite perpetuamente en el tiempo. Olvido con demasiada facilidad cómo fueron las cosas y me aterrorizan el aquí y el ahora, sin pasado ni futuro. Escribir abre las criptas de los muertos y los cielos tras los cuales se ocultan los ángeles proféticos. La cabeza hace girar y girar la rueca y así va tejiendo su tela."

Sylvia Plath
Diarios, 1957

Traducción: Elisenda Julibert
Editorial: Alba

Fragmento encontrado no blog Calle del Orco


"Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou"

Trailer do documentário dirigido por Bárbara Paz.






Capa do livro Mr. Babenco – Solilóquio a dois sem um. Livro de memórias do cineasta Hector Babenco (1946-2016), organizado por Bárbara Paz. A obra é composta de conversas entre 
Babenco e Bárbara, já no fim da vida do cineasta. Respondendo às  perguntas de Bárbara, Babenco   conta sobre sua infância na Argentina, a descoberta do primeiro câncer e os bastidores de seus filmes. O livro traz também poemas inéditos escritos por Babenco (em espanhol e português) e algumas fotos.
(Editora Nós, 184 págs., 2019)








"La poesía es inconsumible en lo más profundo", um texto de Pasolini

 "Así que vuelvo al ambiente en el que vivo, que es un ambiente que se está acercando a pasos agigantados a la situación general del capitalismo norteamericano. Es cierto, Italia, en los últimos seis o siete años, ha dado pasos gigantescos, más importantes que en sus cien años anteriores, precisamente hacia el neocapitalismo, la industrialización etc., etc. Precisamente esto ha originado mi crisis personal, lo que me ha llevado a pasar de un periodo gramsciano mítico-épico a un periodo digamos que problemático, un periodo que implica -parece extraño- una postura más aristocrática y un trabajo más elitista, más complejo. Ahora bien, tal vez dependa de las circunstancias: en un mundo donde siento que mis destinatarios han cambiado idealmente, en un mundo donde el pueblo, la clase obrera y los intelectuales avanzados ya no constituyen ese público al que me dirijo idealmente, sino que es un mundo mucho más complicado, con un trasfondo de cultura de masas aún indefinible y amenazante, que en Italia todavía no está tan presente, donde la idea de pueblo y de burguesía se están confundiendo de la manera más inaudita, bien, en este momento, es objetivamente posible que, por fuerza, mi yo problemático tenga que hacerse aún más difícil, y, por tanto, tenga que dirigirme a las élites. Sin embargo, en esta operación hay incluso algo voluntario. Este algo voluntario lo expresaré con más claridad si le hablo un momento de teatro.

[…] De todos modos, cerremos este paréntesis y volvamos a las razones personales por las que llegué al teatro. Digamos que fue de manera intuitiva. Después, naturalmente, llegó el momento de la reflexión crítica y entendí esto: que en el fondo yo había elegido teatro porque había decidido hacer algo que, por su naturaleza, por su definición, nunca pudiese convertirse en un medio de masas. Y, de hecho, el teatro no es reproducible. No se puede reproducir, no se puede hacer una serie. Con esto quiero decir que la literatura en Italia, como ya ocurre en los estados más avanzados, empieza a estar amenazada por la industria comercial, por la mercantilización. El cine ya está muy amenazado por esta situación. De hecho, ver la tragedia Teorema para mí representa una angustia continua, pues era una película nacida para ser cine de ensayo, de élite, pero que fue lanzada a la masa, que luego la interpreta, la transforma a su manera que me desmoraliza, que, en fin, me angustia.
Sin embargo el teatro escapa a todo esto, pues, por muy grande que sea el número de espectadores que ve un texto teatral, nunca llegará a coincidir con lo que se denomina “masa”. Lo constituye un público de carne y hueso, un centenar de personas identificables una por una, ante los actores de carne y hueso. Así pues, esta elección del teatro, como medio que nunca podrá ser masa, puede ser paradigma para toda mi obra. Esto vale también para la poesía. La poesía que estoy escribiendo ahora es una poesía desagradable, desapacible, una poesía apenas consumible, también en el sentido exterior del término. Yo sé que la poesía es inconsumible, sé bien que es retórico decir que los libros de poesía también son productos de consumo, porque, por el contrario, la poesía no se consume. Los sociólogos se equivocan en este punto, tienen que revisar sus ideas. Dicen que el sistema se lo come todo, que lo asimila todo. No es cierto, hay cosas que el sistema no puede asimilar, no puede digerir. Una de ellas, por ejemplo, es precisamente la poesía: en mi opinión, es inconsumible. Uno puede leer miles de veces un libro de poemas y no consumirlo. La consumición la sufre el libro, pero no la poesía.
Por tanto, para concluir, sé perfectamente que la poesía es inconsumible en lo más profundo, pero yo quiero que sea lo menos consumible posible también exteriormente. Lo mismo vale para el cine: haré cine cada vez más difícil, más árido, más complicado, y quizá incluso más provocador, para que sea lo menos consumible posible, exactamente igual que con el teatro, que no puede convertirse en un medio de masas, por lo que el texto permanece sin consumir."


Pier Paolo Pasolini

Entrevista con Giuseppe Cardillo

Foto: Pier Paolo Pasolini

"Como as democracias morrem - Steven Levitsky e Daniel Ziblatt


Steven Levitsky: “Perdemos a capacidade de discutir política e depois ir jogar futebol juntos”


Autor do best-seller ‘Como as democracias morrem’, ele é uma espécie de médico legista dos regimes políticos, estuda o porquê do populismo e da polarização em países nos quais o ‘establishment’ está sendo rejeitado.

Alguns entrevistados são apresentados pela forma como chegam ao encontro; outros, pela forma como vão embora. O professor Steven Levitsky (Princeton, Nova Jersey, 1968) faz parte do segundo grupo. Depois de mais de uma hora de conversa em um hotel no centro de Nova York, o cientista político pendura a mochila das costas e pergunta de um modo que parece completamente franco: “Então vocês queriam mesmo falar comigo?”. Há quem acredite que pode escrever um livro como Como as democracias morrem (Ed. Zahar), que fez tanto barulho, e que não será procurado por pessoas querendo lhe fazer perguntas.

Levitsky, doutorado pela Universidade de Stanford e professor de Governança em Harvard, é algo como um médico legista dos regimes políticos, tanto liberais quanto tirânicos. Dedicou boa parte de sua carreira ao estudo do autoritarismo e aos processos de democratização, à expectativa de vida dos regimes revolucionários, ao papel do populismo. Especialista em América Latina, é autor de várias obras sobre a região, apesar do título citado, coescrito com seu colega Daniel Ziblatt, oferecer um panorama global. Enquanto fala (em espanhol), é fácil imaginá-lo dando aulas como dá uma entrevista, abrindo muito os olhos e gesticulando sem parar, com as mangas da camisa soltas de forma anárquica.


Pergunta. Percebe-se uma mudança nos estudantes, no que perguntam e no que os preocupa? O sr. viu os Estados Unidos mudarem por meio de seus alunos?

Resposta. Tenho um grupo muito pouco representativo dos EUA. Em termos de etnicidade ou de país de origem, Harvard nunca foi tão diversa, há 50 anos só havia meninos ricos da New England. Agora são de todos os lugares e de todo tipo. Mas estou dando uma aula para 150 estudantes e provavelmente não há nenhum trumpista.

P. Mas isso não faz sentido...

R. O país se divide entre centros urbanos, com pessoas com título universitário, e cidades pequenas em zonas rurais, com pessoas sem tanta formação. Nessa divisão, todos os professores e a maioria dos estudantes estão de um lado. Além disso, nos EUA a juventude é muito mais democrata do que republicana. Trump tem apoio de pessoas mais velhas do que eu, de 60, 70 anos... Mas entre as pessoas de 18 a 20, quase 70% hoje em dia são democratas. Agora há dois mundos: o mundo urbano do litoral é muito mais cosmopolita, muito mais progressista, mais liberal; o interior é muito conservador.

P. Uma fratura tão grande “campo-cidade” erode a democracia?

R. Sim. Acontece em outros países, mas aqui, talvez pelo tamanho, a segregação nas bases sociais dos dois partidos é enorme. Há poucos lugares nos EUA em que convivem democratas e republicanos. Onde moro, Boston, tenho de dirigir 20 quilômetros para encontrar um trumpista. É preciso sair da cidade e chegar ao campo para encontrar um trumpista, isso não é normal. E, ao contrário, se você for a Oklahoma vai encontrar cidades inteiras que votam 99% em Trump, não há democratas. Se apareço por lá me veem como um marciano. É uma mudança lenta, mas relativamente nova, e não me parece saudável para a democracia. Os cidadãos perdem o hábito e a capacidade de coexistir, de tolerar a diferença, de discutir sobre política e depois ir jogar futebol juntos. Estamos perdendo essa capacidade mínima do cidadão de conseguir conviver com pessoas de outro partido. Os políticos representam seu território e se este é homogêneo não há necessidade de assumir compromissos, nem de negociar. Em Oklahoma é possível ser totalmente trumpista porque sua base é 100% trumpista. E todo o eleitorado do meu representante, que é neto de Bob Kennedy [Joseph Kennedy, de Massachusetts], é democrata, então se a pessoa começa a negociar com a direita, é linchada por nós. A ausência total de integração entre as pessoas dos dois partidos é muito daninha para a democracia.

P. A polarização então vai além do efeito Trump.

R. Trump é mais sintoma do que causa. O principal problema, em nossa opinião, é a polarização partidária, que é baseada, além disso, não em termos de direita e esquerda, mas em raça, religião e cultura. Produto dessa polarização é o enfraquecimento das regras básicas da democracia.

P. Mas isso é tão novo ou agora é que chama mais a atenção?

R. É novo em um sentido muito importante. A questão da raça esteve conosco desde o nascimento da república, e foi fonte de autoritarismo, abuso, conflito e até guerra civil no século XIX. O novo é que a raça está fortemente ligada ao partidarismo. Pela primeira vez desde o século XIX, desde a guerra civil, a identidade partidária tem a ver com raça e religião. As pessoas brancas e cristãs são republicanas, para generalizar, e as demais são democratas. O partido republicano se tornou um bastião de brancos cristãos que foi maioria em toda a história da república. Era o grupo que dominou as hierarquias políticas, econômicas, sociais e culturais deste país por 200 anos, mas que está perdendo peso na sociedade norte-americana. É uma mudança de longo prazo, inevitável.

P. Surpreende que o sr. não mencione o fator do gênero.

R. Em minha opinião, o efeito de gênero está aí no sentido de que a maioria das mulheres votam nos democratas e que a figura de Trump representa um retrocesso de mais ou menos meio século em termos de normas sociais de gênero. Mas há muitas mulheres republicanas e democratas. A raça e a religião dividem a sociedade, nem tanto o gênero. Se você fosse norte-americana e eu lhe perguntasse sua religião, sua raça e seu nível de formação, acertaria mais facilmente em que partido você vota do que sabendo seu gênero.

P. O tema de seu livro é como morrem as democracias. E os regimes autoritários? Dizem que o chavista está se autodestruindo.

R. De várias maneiras. Nesse caso, o Governo sofre a maldição do petróleo. Muitos regimes, inclusive a democracia venezuelana dos anos setenta, sofrem com a abundância do petróleo e acabam arruinando a economia. Enquanto o preço estava acima de 100 dólares por barril, Chávez utilizava os recursos para manter um apoio majoritário. Quando o preço cai a economia começa a baixar em 2011, 2012, 2013..., e então a popularidade também cai. A causa principal da fraqueza do regime é a economia. Nem todos os regimes autoritários caem assim. Vietnã e China têm regimes autoritários muito mais estáveis. Assim como a América Latina. A própria Espanha com Franco, entre os anos 50 e 60, quando começou a crescer, se estabilizou. O crescimento ajuda muito a estabilizar o regime autoritário.

P. Quais são as democracias mais sólidas e saudáveis atualmente?

R. Ninguém gosta de política, ninguém gosta das pessoas que estão no poder, seja na Suécia, seja na Finlândia, seja no Reino Unido... Esperamos muito dos representantes políticos, eles têm uma responsabilidade muito grande aos olhos do cidadão, e os políticos são medíocres. Buscam o poder, é seu trabalho, chegar ao poder e ficar. Isso soa mal. Além disso, têm de ser pragmáticos, adaptar-se. Dizem uma coisa na campanha, mas a situação muda, e têm de pactuar com a oposição, chegar a acordos que ninguém gosta. Um Franco ou um Pinochet podem ser puros. Se você mata a oposição ou a manda para o exílio, pode se manter puro, mas na democracia é preciso sujar as mãos — não digo no sentido de corrupção — é preciso fazer acordos. Exceto em casos de democracias recém-nascidas, como a espanhola no fim dos anos setenta, os cidadãos não estão satisfeitos, não vamos encontrar uma democracia com décadas de vida na qual as pessoas estejam felizes com o sistema. Sempre reclamam.

P. No fundo é bom sinal, de que o cidadão está descontente porque se acostumou a padrões altos.

R. Sim, e também há mudanças nas democracias estabelecidas que acredito que ainda não chegamos a entender completamente, como o crescente enfraquecimento do establishment político. Na Europa, Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos, nos anos sessenta havia um establishment muito forte: dois partidos que controlavam as candidaturas, três canais de televisão que todo mundo via, fontes de financiamento limitadas, sindicatos, empresários... Nos EUA em 1958, se não aparecesse na NBC, CBS, ABC [grandes redes], você não chegaria ao eleitorado. Se não tenho amigos no sindicalismo ou entre os empresários, não consigo dinheiro para minha campanha. E se não faço parte do mainstream do partido, como não há primárias, não posso ser candidato a nada. Assim, todos os políticos costumavam ser moderados. Isso mudou por várias razões. Bernie Sanders pode arrecadar tantos fundos quanto Hillary Clinton, buscando dinheiro na Internet, e um candidato pode se tornar conhecido pelo WhatsApp ou pelo Facebook.

P. Houve uma abertura de mercado.

R. Há uma democratização das democracias que gera muita incerteza, mais populismo. Em 1958 eu não podia ser populista porque o establishment me rejeitava. Hoje posso rejeitar o establishment e ganhar votos, ser o Movimento Cinco Estrelas, ser Vox ou ser Trump. A democracia dos anos cinquenta era muito elitista, muito contida. Hoje é muito mais um circo, mais aberta, mas em crise.

P. E o que se pode fazer? Voltar ao establishment?

R. Impossível, as pessoas não toleram. É um dos desafios que nós, políticos e cientistas políticos, temos: aprender como fazer funcionar uma democracia em uma época em que o establishment não pesa nada.


Respira, Lilo Clareto!






Transcrição de belíssimo texto da escritora e jornalista Eliane Brum, dedicado ao amigo, o fotógrafo Lilo Clareto, que luta pela vida na UTI do Hospital Regional Público da Transamazônica, em Altamira.
"Respira, Lilo!
Lilo Clareto respira com os olhos. E agora ele tem os olhos fechados. Em coma induzido para a intubação por covid-19, eu poderia pensar que ele parou de olhar o mundo de fora. Mas eu não acredito nisso. Os olhos de janela do Lilo estão olhando para os vastos mundos de dentro. O que você vê, Lilo? Eu quero perguntar porque o Lilo vê coisas que mais ninguém vê. Estamos há 20 anos juntos contando os Brasis, eu como repórter de texto, ele como repórter de fotos. Somos uma dupla, algo que quase não existe mais no jornalismo. Quando eu escrevo, são os meus olhos e os do Lilo. E eu quero acreditar que, quando ele fotografa, são os olhos dele mais os meus. Assim, desde a quarta-feira à noite, 17 de março, quando os olhos do Lilo foram fechados para que ele pudesse respirar com ajuda, eu ando pelos mundos, os de fora e os de dentro, meio cega, cambaleando, desacostumada a ter apenas um par de olhos para contar as histórias desse tempo.
Acordo de manhã, como agora, e grito. Em voz alta, mesmo. Liiiiiilo! Fico achando que ele escuta. E quero saber o que ele está vendo no seu sono induzido. É a primeira vez que ele não me conta. Ainda não me conta. Sempre achei que Lilo aprendeu a ver com dona Geraldinha, a mãe que se alfabetizou aos 92 anos porque não queria morrer cega das letras, a mulher de palavra cantada que pariu 16 crianças na roça de Passos, em Minas Gerais. Nenhum sofrimento, e eles foram muitos, deixou marca nos olhos de dona Geraldinha. Nem mesmo os sustos com as arteiragens de Lilo e Inês, os dois caçulas do balacobaco. Dona Geraldinha, como seu filho mais novo, tinha a pureza de quem a todo momento “renasce para a eterna novidade do mundo”. Dona Geraldinha deu ao Lilo olhos de primeira vez.
Nossa estreia juntos foi em 2001, em terra Yanomami. Ele já era um fotógrafo consagrado pelos anos todos em que trabalhou no Estadão. Entre suas tantas fotos notáveis está a de um menino vivendo nas ruas de São Paulo, um menino condenado pela nossa incapacidade de enxergar. A imagem capturada por Lilo mostra uma criança pequena, que desloca a chupeta da boca para dar uma tragada no cigarro. É brutal. Penso que só Lilo poderia ter capturado aquele instante. E, também daquela vez, Lilo sofreu com o que para sempre sofreria/ sofreríamos. O que denunciava provocava comoção social, discursos, mas a sociedade e o Estado logo se esqueciam. E as crianças do Brasil seguiriam morrendo antes de crescer.
Em 2001, nós dois trabalhávamos na revista Época. E assim nos descobrimos em território Yanomami, olhando desconfiados um para o outro. Depois de avião, helicóptero e voadeira, finalmente alcançamos a aldeia indígena ensopados de chuva amazônica já à noite. Nos ofereceram vermes assados na brasa das fogueiras e um espaço no lado de fora da bela casa coletiva. Só cabia uma rede, Lilo e eu dormimos com o pé de um na cara do outro. Choveu sobre nós a noite inteira e tiritávamos de frio. Ao amanhecer, despertamos com os gritos da equipe de saúde que acompanhávamos: “No chão, não! Segura por favor! Cospe aqui!”. Os profissionais precisavam coletar o primeiro catarro da manhã para teste de tuberculose, a doença levada pelos garimpeiros que dizimava – e ainda dizima – os indígenas. Nunca vimos tanto catarro na nossa vida. Com uma estreia dessa magnitude, ou nos amávamos para sempre ou nos odiávamos para sempre. Nunca mais nos separamos.
Três anos mais tarde, em 2004, fomos os primeiros jornalistas a alcançar a Terra do Meio, no Pará. E lá, no Riozinho, a terra das borboletas amarelas, não sabíamos mas fizemos uma promessa de nos amazonizarmos. Lilo e eu começamos a nos converter em floresta. Ou a voltar à terra. Passamos mais 13 anos itinerando pelos tantos Brasis e pelas tantas Amazônias, Lilo ao mesmo tempo dirigindo pela Transamazônica e dando broncas pelo telefone nos três filhos que teve com Lia, sua primeira mulher, dos quais tanto se orgulha: Bia, Fran e Gabi. Ele sempre foi um tremendo pai, inspirado pelo seu próprio, Antonio Clareto Costa, homem duro e reto, contador de histórias, todo ele esteios. Um dia liguei para o Lilo em São Paulo, onde ambos vivíamos: “Depois eu explico melhor. Mas preciso saber agora! Topa se mudar comigo para Altamira?”. Com seu habitual desassombro, Lilo só disse: “Librum, tou dentro”.
E estava. Desembarcamos na noite de 16 de agosto de 2017. E, não sei como, mas numa típica lilagem, na mesma noite Lilo já beijava Dani no trapiche de Altamira e ali se enraizava na comunidade, na floresta e na vida da mulher maravilhosa por quem se apaixonou. Maria, minha afilhada, hoje tem 2 anos. E já começou a lilar. Sim, Lilo se tornou verbo alguns anos antes. Como está o Lilo, me perguntam? Lilando. E as pessoas já entendem que ele está se movendo pelas ruas como se o mundo fosse bom e não tivesse pressa, parando para coletar uma muda de flor sem perceber que a 4X4 tirou fino, poetando nas esquinas, cantando seu assombroso repertório de MPB com a certeza inabalável do amor da plateia.
Tenho certeza que no leito da UTI do Hospital Regional Público da Transamazônica, o “Regional”, Lilo está dando um jeito de lilar no coma. Lila, Lilo! Lila. Ele possivelmente se contaminou com o novo coronavírus ao fotografar o ecocídio produzido pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte na Volta Grande do Xingu. Não estava comigo nem era um trabalho nosso. Mas Lilo não teve os olhos fechados por uma tragédia, preciso dizer e sei que ele gostaria que eu dissesse. Lilo é vítima do genocídio produzido por Jair Messias Bolsonaro, ao deliberadamente agir para disseminar o vírus durante todo o primeiro ano da pandemia, chegando ao inominável de recusar o oferecimento de vacinas. Altamira, neste momento, como grande parte das cidades brasileiras, está em colapso. O último levantamento mostrou 17 pessoas em estado grave esperando por um leito na UTI do hospital. Estamos chegando a um ponto do horror em que cada brasileiro está ameaçado de perder alguém que ama, quando não a própria vida.
Nesses últimos dias descobri que existe algo em que Lilo é ainda melhor do que fotógrafo. Lilo é um gênio do amor. Seu talento inigualável é ser amado. Criamos a “Rede de Amigos do Lilão”, para garantir que Lilo possa ter o melhor cuidado possível e também para cuidar da família do Lilo enquanto ele não pode. A força dessa rede tem sido uma enormidade de amor atravessando o cotidiano de perversão imposto ao Brasil. Nossas mensagens com pedidos de apoio tem literalmente atravessado o mundo. Gente que nunca viu o Lilo já manda mensagens dizendo que o ama. “Quem é esse Lilo?”, me perguntava ontem um médico intensivista que resolveu ligar porque até de Paris ele tinha recebido uma ordem expressa para largar tudo imediatamente e cuidar de “um tal de Lilo”. O tal de Lilo precisava de um medicamento de ponta e uma distinta senhora de quase 80 anos, que nunca viu o Lilo nem fala português, conseguiu com seu médico em Chipre. Já era tarde, mas que feito! Tenho certeza que já tem alguém dizendo em alguma estação espacial: "Houston, we have a problem. Ops! Lilo has a problem.... Who the fuck is that Lailo, Loulo, Liiiilo?". Cristo pode não ser uma unanimidade, mas o Lilo é.
Acreditávamos que nos movíamos para salvar o Lilo. E descobrimos que nossa resistência pelo cuidado, pelo afeto, pela alegria de estarmos juntos lutando pela vida tem salvado a nós mesmos. Lilo fez mais uma lilagem e, das profundezas do coma induzido, está cuidando de todos nós. Junto com ele, estamos todos lilando nas águas de março. Essa galeria de fotos é gesto de amor dessa rede. Os olhos do Lilo ainda estão fechados, mas o que ele viu pode virar janela na sua casa em quarentena. Olhos de Lilo abrindo a sua parede de quarentena para mundos sem pandemia.
Fico enfileirando histórias, guardando causos na gaveta, louca para contar para o Lilo quando ele acordar. Ele vai ficar tão impossível... e por algumas semanas vai caminhar com doses extras de malemolência. Lilo, Lilo, Lilo. Abra os olhos. Não me deixe cega vagando pelos Brasis, seus olhos amputados de mim."
(Eliane Brum - 20/03/2021)


Deseo de escribir!

 " Por el gusto de escribir algo: después de muchos día de silencio escritural me ha asaltado en el baño, mientras me lavaba las manos,...