Arquivo do blog

30.12.21

Corpos dissidentes: arte, literatura e pensamento queer


O livro Corpos dissidentes - arte, literatura e pensamento queer, em edição digital, traz textos de Alessandra Hypolita Valle Silva Lopes, Bruna Fernandes Barros, Diogo da Costa Rufatto, Fábio Garcia Ribeiro, Fernando Antô­nio Siqueira Ferreira, Gustavo Henrique Sousa Assis, Jo­arle Magalhães Soares, Juliano Vasconcelos Magalhães Tavares, Luan dos Santos Silva, Lucas Diego Gonçalves da Costa, Lucia Santiago (que também assina um  ensaio visual), Luiz Lopes, Marcílio Miguel Oliveira,  Mariana Ferreira Valentin da Silva, Miguel Fernandes Pereira e Tiago Cruvinel.

Organizador: Luiz Lopes. Ilustração: Thiago Bonifácio. Projeto gráfico: Miriã Bonifácio. Revisão: André Meyerewicz. Divulgação: Lucas M.R. Faria e Vinicius Gonzaga. Coeditora: Lucia Santiago. Editor: Mário Santiago. 
ISBN 978-65-86805-09-3
Disponível para leitura on-line e download.

 

22.12.21

Do Valter Hugo Mãe, crônica belíssima

Outono triste em cárcere

"Há dias, passava pela marginal um homem de braços estendidos no ar como os fantasmas. Dizia que era os mortos da pandemia. Não apenas um morto, mas os mortos todos, como uma representação simbólica das mais de um milhão e duzentas mil pessoas que sucumbiram no mundo inteiro. Quem passava na marginal ouvia aquela declaração louca e não sorria. Lembro o que comentava uma amiga psicóloga há umas semanas, que esgotou no mercado um calmante muito popular, o Victan, e que os níveis de ansiedade estão altíssimos, é possível que muita gente já vá descontrolada pela casa. Muita gente vai sair descontrolada à rua."
(Trecho da crônica de Valter Hugo Mãe, originalmente publicada em Outras palavras, com uma igualmente bela imagem de William Turner)
Leitura altamente recomendável.

19.12.21

Caminhando com o Frédéric Gros

"Com isso, quero dizer que, caminhando, não se vai ao encontro de si mesmo, como se se tratasse de se redescobrir, de se libertar das velhas alienações para reconquistar um eu autêntico, uma identidade perdida. Caminhando se escapa à própria ideia de identidade, à tentação de ser alguém, de ter um nome e uma história."
(Trecho do livro Caminhar, uma filosofia, da editora Ubu, publicado há dois dias no excelente portal Nexo)


Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2021/12/16/%E2%80%98Caminhar%E2%80%99-o-elemento-filos%C3%B3fico-por-tr%C3%A1s-da-atividade


18.12.21

De volta a Fanon, ao primeiro Fanon


  Frantz Fanon (1925-1961)

Pele negra, máscaras brancas


Este trecho de Pele negra, máscaras brancas (1952)foi selecionado da postagem encontrada no Portal Geledés, onde há também um link para o texto integral desse belíssimo livro.

Na edição (2020) da editora Ubu há um belíssimo prefácio da escritora portuguesa Grada Kilomba. Eis um trecho desse prefácio:

"Sem se aperceber, a minha professora de psicanálise segredou-me, porque de facto se tratava de um segredo. De algo que a ninguém se deve revelar. Algo censurado, proibido, que se oculta à vista e ao conhecimento. Algo que não deve existir no mundo da branquitude. Na biblioteca, Frantz Fanon não existia, e assim eu também não. Falo de novo sobre existência e ausência. Afinal, eu era a única estudante negra em todo o instituto de psicologia clínica e psicanálise, numa cidade recheada de várias gerações afrodescendentes, e aquela professora notou. Ela notou o princípio da ausência. O princípio no qual quem existe deixa de existir. E é com este princípio da ausência que espaços brancos são mantidos brancos, que por sua vez tornam a branquitude a norma nacional. A norma e a normalidade, que perigosamente indicam quem pode representar a verdadeira existência humana. Só uma política de cotas é que pode tornar o ausente existente. A entrega deste livro talvez não tenha demorado mais do que seis minutos, ou sete, mas foi um momento que mudou radicalmente o meu mundo, sem ela o saber. Pois Frantz Fanon tornou-se o centro de todos os meus trabalhos, tanto literários como artísticos."


Ler também esta nota de Anne Mathieu, publicada em 2009 no Diplomatique/Brasil. Dois textos altamente recomendáveis!

17.12.21

Cartas de Françoise Ega para Carolina de Jesus

Maio de 1962
"Eu descobri você, Carolina, no ônibus.
Levo 25 minutos para ir até meu emprego. Penso que não tem a menor serventia ficar se perdendo em devaneios no trajeto para o trabalho. Toda semana me dou ao luxo de comprar a revista Paris Match; atualmente, ela fala muito dos negros. Foi assim que conheci a sublime sra. Houphouët com seu vestido de gala. Eu não iria lhe dedicar as minhas palavras, ela não as teria compreendido. Mas você, Carolina, que procura tábuas para o seu barraco, você, com suas crianças aos berros, está mais perto de mim. Volto para casa esgotada. Acendo a luz, as crianças estudam, do jeito como se faz hoje em dia. Elas não têm muitos deveres de casa, seria cansativo demais, mas me contam o enredo, detalhe por detalhe, da última história em quadrinhos que foi lida na escola. Carolina, você nunca vai me ler; eu jamais terei tempo de ler você, vivo correndo, como todas as donas de casa atoladas em serviço, leio livros condensados, tudo muda rápido demais ao meu redor. Para escrever alguma coisa, preciso esconder meu lápis, senão as crianças somem com ele e com meus cadernos. Há noites em que os encontro bem no finalzinho. Já o meu marido me acha ridícula por perder tempo escrevendo bobagens; por isso, esconde cuidadosamente a caneta dele. Como você conseguia segurar um lápis com a criançada à sua volta?  Para os meus filhos, sumir com um lápis é normal, sempre tem o da mãe ao alcance. Somente uma coisa os faz parar: quando digo que temos em casa apenas o dinheiro do pão, eles evitam, por um breve período, perder seus materiais. É sempre a mesma coisa, não importa o que estejam fazendo. Só me resta esperar para ver quem aparecerá primeiro com os sapatos furados depois de jogar futebol. Meu marido diz: “O importante é o pão de cada dia, o resto a gente dá um jeito.” Acho, Carolina, que você conhece essas palavras. Na favela, você nunca foi capaz de pensar em nada além do pão de cada dia. Penso que é isso que me aproxima de você, Carolina Maria de Jesus. Eu também me chamo Marie, como você, e Marcelle, como Pagnol. 
Moro muito perto do povoado dele, nunca o li, mas o escutei no rádio com paixão. Também me chamo Françoise e, por fim, Vittalline, como ninguém mais. Não canso de me perguntar onde meus pais encontraram um nome desses. […]"

"Françoise Marcelle Ega 
nasceu em Morne-Rouge, na Martinica, em 11 de novembro de 1920, e mudou-se para a França durante a Segunda Guerra. Em 1946, casou-se com o soldado Frantz Ega, com quem teve cinco filhos. Em Marselha, onde viveu o casal, ela precisou trabalhar como faxineira e costureira, embora tivesse o ensino médio completo e um diploma de escola técnica. Em 1966, publicou seu primeiro livro, Le Temps des Madras, sobre sua infância na Martinica. Foi por meio de uma reportagem na revista Paris Match, em 1962, que tomou conhecimento de Carolina Maria de Jesus, a autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. A escritora brasileira é a “destinatária” dos textos autobiográficos do livro Cartas a uma Negra, publicado dois anos após a morte de Ega, em 7 de março de 1976."

Matéria muito boa publicada na Revista Piauí, ed. 173. Um livro imprescindível!


Uma história fascinante

 "Antero Macedo, 65, passou os últimos dias organizando caixas etiquetadas com ´Máquina do Tempo´. Estava à procura da carta da arquiteta Fabiana Castro, 29, entre pastas coloridas que tomavam conta da entrada da sala da diretoria do Colégio Monsenhor Joviniano Barreto, em São João do Tauape, um bairro de Fortaleza com jeitão de cidade do interior..."
...
"
Em 2001, Antero pediu que uma turma escrevesse cartas, contando sonhos e desejos pessoais para os próximos dez anos. A ideia era que o aluno lesse o que escreveu décadas depois para tentar compreender as viradas da vida. Adotou o mesmo processo com alunos de séries diferentes e quatro escolas de Fortaleza, entre públicas e particulares, até 2014...." 

13.12.21

"Sobre a leveza da paz", José Luís Fiori

"E por isso mesmo, nunca haverá uma paz conquistada através da guerra que possa ser equânime, porque toda paz será sempre injusta do ponto de vista dos derrotados. Por isso, concluímos nossos dois livros com uma tese que não é nem realista nem idealista, é simplesmente dialética: ´a paz é quase sempre um período de ‘trégua’ que dura o tempo imposto pela ‘compulsão expansiva’ dos ganhadores, e pela necessidade de ‘revanche’ dos derrotados. Por isso se pode dizer que toda paz está sempre ‘grávida’ de uma nova guerra. Apesar disto, a ‘paz’ mantém-se como um desejo de todos os homens, e aparece no plano da sua consciência individual e social como uma obrigação moral, um imperativo político, e uma utopia ética quase universal. Por isso, a guerra e a paz devem ser vistas e analisadas como dimensões inseparáveis de um mesmo processo, contraditório e permanente de busca dos homens, por uma transcendência moral muito difícil de ser alcançada´” (Trecho do interessantíssimo artigo encontrado no site A terra é redonda).

12.12.21

L´incroyable Vivian Maier


   Foto: Istoé

"Elle a continué sa pratique photographique tard, développant une œuvre en couleur aussi remarquable que ses images en noir et blanc. Elle a continué à aller voir des films, une de ses passions, et un témoin la décrit comme une ´encyclopédie vivante du cinéma´".  
(Trecho da interessante matéria publicada no portal franceinfo/culture).
Recomendável a entrevista com Ann Masks, autora de uma interessante biografia de Vivian Maier, publicada no Chicago Magazine.


    Foto belíssima!


9.12.21

Eliane Brum de olho na rua

"repórter gaúcha percorre desde a floresta Amazônica as periferias da grande São Paulo, para contar a história de gente que passa despercebida. Ao final de cada reportagem, a autora descreve como foi o processo de produção, bem como, suas experiências ao adentrar ambientes que fogem do seu cotidiano. A reportagem que abre o livro é “a floresta das parteiras”. A narrativa descreve a vida de parteiras amazonenses, também conhecidas como “pegadoras de menino”. Com períodos curtos, mas profundos, Eliane elucida como aquelas mulheres apesar de analfabetas fazem poesia com os lábios."
(Trecho da resenha de 
Talyta Brito para o livro O olho da rua, da jornalista e escritora e jornalista Eliane Brum. Um livro indispensável! Especialmente recomendável a "reportagem" intitulada "A floresta das parteiras".)


Marina Tsvietáieva, "El poeta y el tiempo"

"No puedo amar a mi propio siglo más que al precedente, pero crear otro siglo diferente al mío tampoco puedo: lo creado no se puede crear y se crea únicamente hacia el futuro."
(Trecho do livro intitulado 
El poeta y el tiempo,  da poeta russa Marina Tsvietáieva [1892-1941].
Publicação a partir do site Calle del orco).



1.12.21

Deseo de escribir!

 "Por el gusto de escribir algo: después de muchos día de silencio escritural me ha asaltado en el baño, mientras me lavaba las manos, antes de irme a acostar, el deseo de estar, a la luz de a lámpara, escribiendo. Deseo de escribir; no de decir algo. Pero deseo, también, de escribir en tanto que escritor: sin que ninguna razón, como no sea el deseo de estar a la luz de la lámpara, escribiendo, haya motivado mi acto. Mecerme en el equilibrio infrecuente y perecedero de la mano que va deslizándose de izquierda a derecha, oyendo los rasguidos de la pluma sobre la hoja del cuaderno, victorioso por haber comprendido por fin que el deseo de escribir es un estado independiente de toda razón y de todo saber, liberado de toda exigencia de estructura, de estilo o de calidad, y lleno del silencioso clamor de las palabras que no son de nadie, que nadie puede acumular ni guardar para sí –la voz del mundo y de cada uno que resuena a través de mí en la noche apacible–. Cada vez que este deseo me viene, trae consigo la validez del universo entero y la de esa partícula sin nombre del universo que soy yo mismo" (Juan José Saer/Papeles de trabajo/Borradores inéditos/Editorial: Seix Barral)

Do Eric para o Thiago

" Lembro de um homem angustiado, indignado, mas cheio de fé na vida. Falamos do Brasil distante e de seus tempos chilenos, de sua amiza...