Por que as pessoas escrevem?

Elizabeth Lorenzotti

"Por que as pessoas escrevem? 'Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver', disse Anais Nin (1903-1977). Para a escritora francesa, trata-se de uma atividade absolutamente vital. 'Escrever deve ser uma necessidade, como o mar precisa das tempestades - é a isso que eu chamo respirar.'
E que necessidade é essa, que se impõe não apenas aos (oficialmente) eleitos pelas musas, mas a tantas pessoas comuns? Por que, em um País considerado iletrado, onde a tradição oral é maior que a escrita - e esta tem barreiras muitas vezes intransponíveis -, as pessoas tanto escrevem? Não a escritura obrigatória do trabalho, do estudo, mas aquela que quer voar, transcender. E quer seja boa ou má literatura, é uma viva expressão da individualidade. E quer seja pretensão, exorcismo, orgulho vão ou pura arte deseja chegar ao outro.
Tanta necessidade de criar por meio da palavra escrita resultou em concursos promovidos pelos mais variados setores, em editoras especializadas no autor que não tem espaço no restrito cânone da literatura oficial, em oficinas de literatura e até mesmo em escola de escritores.
Na Bienal Nestlé de Literatura, em seis concursos, de 1981 até 1997, inscreveram-se 49.342 mil pessoas. O volume de obras era de tal forma inadministrável que os organizadores, a partir do penúltimo evento, em 1994 (com 15 mil inscrições), mudaram o regulamento e o nome do evento para Prêmio Nestlé de Literatura, limitando as inscrições a obras já editadas. Em 1997, foram julgados 800 livros.
De cada concurso da Casa do Novo Autor, estabelecida há 11 anos no eixo Rio-São Paulo, participam cerca de 2 mil pessoas (e já foram realizados 110, que publicam cerca de 200 autores por edição). E há tantos outros concursos espalhados pelo País. Herança do grave e fundo sentimento português pelo ato de escrever?
´Também escrevemos para aprofundar o nosso conhecimento da vida', dizia Anais Nin, consagrada especialmente pela exploração do mundo interior feminino em seus sete volumes de diários. 'Escrevemos para aprender a falar com os outros, para testemunhar nossa viagem no labirinto; para abrir, expandir nosso mundo quando nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados.'
Escrita cotidiana - Abandonado, Raimundo Arruda Sobrinho, de 60 anos, mora no canteiro central da Rua Pedroso de Morais, esquina com a Praça Hernâni Braga, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Sentado em um banco, Raimundo fica ali, escrevendo, a maior parte do dia, todos os dias, há seis anos. Escravizado psiquicamente, como se define, diz que escreve o que precisa. 'Não quero ser lido nem quero ler ninguém', proclama, fechando rapidamente a capa que cobre seus escritos.
Para quem escreve? 'Escrevo para mim.' E o que faz com a produção de todos esses anos? 'Não interessa', rebate, ríspido. Quer saber por que tantas perguntas, é informado que se trata de uma pesquisa com pessoas que, como ele, gostam de escrever. 'Vou processar todos, então tem gente me imitando?', esbraveja.
Quando se acalma, classifica a escrita em três tipos: a vulgar ( aquela do dia-a-dia), a profissional (de jornalistas, tabeliães, etc.) e a artística (dos poetas, dos escritores). 'A minha é a escrita vulgar', diz Raimundo. Vai abrindo a capa que cobre os escritos - sim, ele quer que alguém leia - e surge uma minúscula brochura artesanal, sob o título O Condicionado. O texto, em boa caligrafia, bem construído, é o início de um ensaio sobre quanto as pessoas desconhecem a mente.
'Tudo conspira contra mim', queixa-se Raimundo. 'Para escrever, tenho de enfrentar a sonolência, a caneta que falha e a chuva.'"



Foto de autor não identificado. Seu Raimundo quando morava na Pedroso de Morais. Hoje está com a família no Mato Grosso, resgatado por uma santa alma que se comovia com ele.
(Trecho de matéria publicada no Caderno 2 de OESP, 29 Mar. 1999 - "O País dos escritores do cotidiano". Copiado do Facebook da autora)

Beleza afro - Para a artista Fran Silva


As vidas de todas as mulheres importam! Lembrando e homenageando, neste dia, Tereza de Benguela e, entre muitas e muitas outras, minha estimadíssima ex-aluna, designer, artista visual, professora de artes e quase irmã, Fran Silva (Mme. Albatroz), de quem vai aqui um dos belíssimos trabalhos que logo estarão expostos numa galeria no site da editora. Na foto: Ebiere do Niger.

Luta e representatividade: a importância de Tereza de Benguela





A história do Dia da Mulher Negra e a importância de Tereza de Benguela: 25 de julho marca o Dia da Mulher Negra, a data é considerada um símbolo de resistência; para falar sobre o assunto, o Aventuras na História entrevistou com exclusividade a historiadora Wania Sant’Anna (Folha de São Paulo. Aventuras na História. 25 Jul. 2021).

Poéticas das cidades 3

    
Tentando entender o entrecruzamento do cinema com a ficção literária, encontrei esta cena bastante  emblemática em um dos episódios da série Onde está meu coração, dirigida por Noa Bressane. Sob os pés desta moça desesperada há uma cidade que não compreende o seu drama pessoal, a cidade espaço da solidão e do desespero individuais. Assistindo, aos poucos e de forma não continuada aos episódios, me senti motivado a refletir, ler, vagarosamente, o fluxo deste bem produzido drama, e esta cena foi, para mim, uma das mais marcantes. Imagem inspiradora, proporciona uma intensa vontade de escrever sobre ela.


  Cristiano Mascaro. Um lugar em São Paulo, à noite.


Estilhaços de São Paulo

Preces. Vidros e ossos partidos. Multas. Dúvidas. Uma porta que se abre. Uma mala que se fecha. Disparos. Sirenes. Dinheiro lançado da janela de um carro. Alarmes. Uma espera aflita. Um tênis novinho na sarjeta. Armas de brinquedo. Uma mulher percebendo que tem classe. Contas. Conversas importantes. Correntes e cadeados. Beijos. Caminhões de mudança. Casas de massagem. Sanduíches/refrigerantes. Resultados de exames dormindo em gavetas. Molhos de chaves. Uma poltrona que passa boiando. Fábricas extáticas. Placas de necessidade. Promessas e frituras. Um homem sobrevivendo aos ferros de seu carro. Alguém implorando pra que Jesus dê as caras. Uma bala perdida. O fim. 

(Fernando Bonassi. Folha de São Paulo. Ilustrada. 07 de julho de 2001) 


O plano diabólico da cidade
















Anteontem era um grupo de homens esburacando a avenida, de madrugada. Hoje é um só golpeando a calçada da esquina com uma picareta, fazendo subir o som de uma tarefa demente. Não, isso não é um trabalho noturno, não venham dizer que é para não perturbar o trânsito do dia, se o dia é feito para essas maçadas no caminho. Pois que seja o dia a engolir mais esse caos sobre caos, esse caos dentro de caos, e nos deixem livres as madrugadas, pelo amor dos nossos nervos, ao menos as madrugadas, para alguma paz sobrevivente, de sangue sem sobressalto, alguma bendita coincidência de silêncio fora e dentro.

Mas não. Agora querem nos tomar também esse espaço, essa chance de respiro, querem meter picaretas e britadeiras na pouca paz das nossas crônicas, e ainda mais, nos nossos sonhos, com esses monstruosos gorgolejos de buracos se abrindo. Será um plano diabólico da cidade para o nosso enervamento? Minha filha me disse outro dia: “mamãe, a cidade está brava com você”. Brava comigo, a cidade? Porque eu não gosto dos seus barulhos. Porque sim, eu me revolto, tenho vontade de gritar para que parem, que nos deixem em paz, que deixem a noite em paz, que vão todos para o olho do dia.

Porque não há razão que explique esse gorgolejar infernal de máquina enchendo o ar da avenida na madrugada. E que não cessa, noite após noite, de uma madrugada a outra. Um homem com uma picareta ou três ou quatro em torno de uma máquina pavorosa dessas, de escavar, perfurar, tremer a terra, e o ar da noite está cheio de catástrofe. É mais um prazer diabólico de estorvar, só pode ser. Um plano diabólico da cidade, para ver se aguentamos, e até onde aguentamos, entre ruas esburacadas e os barulhos de esburacar, onde mais nos refugiaremos, agora que nem as noites nos protegem. Onde?

(Mariana Ianelli. RascunhoIlustração: Alfredo Aquino)

(Atualizado em 22/Julho/2021) 

 

Poéticas das cidades 2


"A praça estava nua. Tão irreconhecível ao luar que a moça não se reconhecia. Também Felipe estacara aliviado: malditos! exclamou empurrando o quepe para trás. Sábado era noite de vários mundos: o tenente tossiu transmitindo-lhes sucessivamente a voz sem palavras. As janelas estremeceram ao relincho. Nenhum vento soprava. Apesar da lua a estátua do cavalo em trevas. Via-se, apenas mais nítida, a ponta da espada do cavaleiro suspendendo fulgor parado. O luar imprimira as mil portas mudas nas portas. E a praça se pasmara na postura torta em que tinha sido tocada. Era o mesmo frio reconhecimento de quando se ouvia a clarineta de um cego... As lajes quase reveladas, mal se podia tocá-las com as botinas. A moça bateu mesmo duas palmas... Que se dividiram imediatamente em salva surda — a praça toda aplaudia. Em menos de um segundo as palmas se separaram e uma ou outra foi sufocar-se nos becos indeterminados pela escuridão. A moça escutou um pouco hostil, as duas mãos afinal enterraram com decisão o chapéu na cabeça. Despediu-se de Felipe dizendo-lhe que não convinha serem vistos juntos."

[...]

"O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços. E quando sobre o alegre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque."

Para mim este é um dos mais belos livros da Clarice Lispector. Este título fraquenta a minha memória há longo tempo. Eu o li no tempo em que no Brasil se falava muito em "estado de sítio", tempos de muito tolhimento das liberdades individuais e das proibições de reuniões, mesmo que fosse em pequenos grupos. Para os governantes e seu aparato repressor tudo tinha, nos idos anos de 196..., tudo tinha caráter político e por isso mesmo deveria ser reprimido. Ler Clarice, naquele tempo, ajudava a suportar o sombrio clima das proibições. Esta nova edição dos livros da CL, pela Rocco, traz, em suas capas obras pintadas pela própria autora. Além dos belos textos da Clarice, tem-se, também uma bela galeria.
(Atualizado em 20/Julho/2021)

Poética Mapuche 2

Interessantíssima matéria sobre a poesia Mapuche, publicada pela revista Cult (edição 271/Julho 2021) e reproduzida no site da revista Outras palavras em 16 deste mês, com a curadoria de Patrícia Lavelle. Nesta publicação sobre a poesia originária,  encontra-se um estudo sobre as poetas Graciela Huinao e Roxana Miranda. Matéria altamente recomendável. Hoje mesmo publiquei aqui um texto interessantíssimo do poeta Elicura Chihuailaf.

Poética Mapuche 1

Nosotros

Elicura Chihuailaf

“Iney rume zullikelay ñi llegael kiñe lof mew, kiñe az mew ñi chumgen, kiñe mogen, kiñe az zugun, kiñe chem rakizuamgen, feypimekeeyiñ mew taiñ pu Che. Welu, kvzawtuaiñ taiñ kimael tañi chumlen taiñ mogen kimvn mew mvten ta mvley taiñ pepi poyewael ka poyeael taiñ wallon mew ka taiñ yamael ta mvlelu zoy ayepvle taiñ pu ken ka taiñ kintun ka taiñ pu reñma ka pu lof. Faw, aye mew, ka kompvle. Feypi piyeeiñ mew taiñ pu Che, tañi Gvlam mew. Wimtun ta Ñuke Mapumu.”

Nadie elige nacer en un lugar, en un color determinado, en una historia, un idioma, una visión de mundo, nos están diciendo nuestras ancianas, nuestros ancianos. Mas, la tarea es conocer lo que nos ha tocado porque conocer es la única posibilidad de amarse y de amar lo que nos rodea y luego respetar lo que está más allá de nuestros lugares y miradas, de nuestras famílias y comunidades. Aquí, lejos, y en todas partes. Así nos está hablando nuestra Gente, en sus Gvlam sus Consejos. Costumbres de la Mapu Ñuke Madre Tierra de la que somos brotes; hijas e hijos agradecidos. Identidad dicen en las culturas occidentales.


Nosotros somos Mapuche/Gente de la Tierra, nos consideramos apenas una parte más de la Naturaleza. Seguimos las normas que surgen desde sus energías visibles e invisibles. Asumimos que respiramos y soñamos bajo el influjo de la Luna y el Sol. Somos emoción y razón; niños y ancianos, ancianos y niños a la vez. La condición dual que nos rige en la totalidad de nuestra existencia. Itro Fill Mogen: la totalidad sin exclusión, la integridad sin fragmentación de la vida. ¿Recuerdas que somos apenas una pequeña parte del universo, abrazados por la dualidad de su energía a la que nos abrazamos? Porque —en nuestra diversidad— somos Hermanos y hermanas de las estrellas y de la brizna del más grande y del más pequeño ser vivo aún no nombrado que nos mira en todo instante desde lo aparentemente invisible, y que nos nombra y nos pide que lo nombremos para mirarse y mirarnos —cara a cara— desde las flores del jardín que son nuestros pensamientos.
Los pensamientos, frágiles en su permanencia, indelebles en la profundidad de la memoria. Las culturas que resuellan en la memoria de los antepasados y hablan en nosotros y son flores en el Jardín del Mundo. En cada flor, como en cada ser humano, palpita um color, una forma, un aroma, una textura particular: la hermosa amarillentud, la hermosa negritud, la hermosa blanquidad, la hermosa morenidad, que constituyen lo maravilla de este Jardín. Ninguna flor superior a otra, todas imprescindibles en el orden natural, que no es el “orden” colonialista sino el aparente desorden: la libertad expresada por las piedras, los ríos, los árboles, los lagos, las hierbas, los volcanes…, en lo finito representado por la Tierra; y las estrellas y los planetas en el infinito que vemos e imaginamos.

Nosotros venimos desde el Azul y retornamos al Azul; es su energía —el espíritu - que se cobija en su casa transitoria que es nuestro cuerpo y que en el círculo de la vida vuelve siempre a su lugar de origen. 

En Wenulewfv el Río del Cielo/la Vía Láctea nacen y mueren las estrellas, como los seres humanos nacemos y morimos en el gran Río de la Vida. Ante la brevedad de la existencia nuestra tarea debiera ser: superar la precariedade de la Palabra; así nos dijeron nuestros abuelos y nuestras abuelas.

Somos casi ocho mil millones de habitantes en la Tierra. Ante la codicia de unas pocas familias que siguen depredando la Naturaleza tenemos que ejercer el acto de Soñar y de Conversar (soñando todo lo vivido/ conversando todo lo soñado) que hoy es en sí mismo un acto de subversión porque va en contra del sistema de “progreso” que nos han impuesto. Recuerden - nos dicen - que, en la dualidad del tiempo circular, habitamos la frontera finita de lo nombrado, intentando siempre atisbar la infinitud - pletórica de significados - de lo por nombrar.

Pero en este tiempo nuestro espíritu y nuestro corazón se agitan porque sienten pena al constatar la realidade de cómo nos han venido enturbiando nuestro caudal de palabras, nuestro colorido de jardín diverso, su movimiento de oruga imperceptible. Son millones de hectáreas afectadas por la deforestación y el fuego; millones de animalitos y aves muertas y desplazadas; millones de insectos desaparecidos. Las plantaciones de eucaliptos y pinos interrumpiendo el ciclo del agua. Y la lluvia no viene o viene toda de una vez. En médio de bocinas y ulular de sirenas, en la complicidad del callarse, del no ver, del “no es para tanto”, “si lo hubiera sabido”, “estuvo/está más allá de nuestras posibilidades”, que intenta justificarlo todo. El poder. La cuotita de poder. La terrible complicidad con los que están arrancando las páginas del gran libro de la naturaleza y, en consecuencia, de todos los diccionarios en todos los idiomas del mundo. Para consolidar el olvido.

Nosotros, los pueblos nativos, no hemos perdido la memoria que nos está diciendo que todos los seres humanos —en todos sus colores— provenimos de antepassados nativos. Por eso, Nosotros y los pueblos nacionales profundos que hoy empiezan a recuperar su memoria y se rebelan, decimos: Sí, queremos el desarrollo, pero con la naturaleza y no contra la naturaliza pues ello nunca será desarrollo sino sólo destrucción.

Publicaddo em Puerto de Ideas de la A a la Z, pág. 82-85. Leila Guerriero (ed.). Santiago de Chile, Junio 2020. ISBN digital: 978-956-9058-36-3. 
www.puertodeideas.cl 

Liberdade! Liberté!

Neste fim de semana fui agraciado com um inestimável presente, recebido através do Facebook da amiga jornalista Elizabeth Lorenzotti. Tenho ainda na memória (aliás, nada deveria desalojar-se da memória) as palavras do belíssimo poema do escritor Paul Eluard (1895 - 1952), recitado num evento cultural em Manaus, do qual participavam alguns amigos e o poeta Thiago de Mello. 

Liberté
Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom
Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom
Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom
Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom
Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom
Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom
Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom
Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom
Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom
Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom
Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom
Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom
Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom
Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom
Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom
Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom
Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.

Liberdade
Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome
Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome
Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome
Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome
Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome
No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome
Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome
Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome
Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar
Liberdade. Paul Éluard, "Liberdade" | "Liberté”. Tad.: Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, in Antologia de poetas franceses do século XV ao século XX. Org.: JR. R. Magalhães, Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.



Poéticas das cidades 1

A partir de hoje, 13 Jul. 2021, uma nova seção (ou novas ruas) será (aberta)incorporada a este blog - Poéticas das cidades, na qual pretendo mostrar e dialogar sobre as confluências, esquinas e cruzamentos entre as artes, a literatura e a filosofia. Quem puder caminhar por estas ruas está, desde logo, convidado. 

Para iniciar esta conversa, algumas construções emblemáticas. 


Edvard Munch. Entardecer em Karl Johan, 1892



A iluminação noturna transfigura a cidade.


[...]

"Ô soir, aimable soir, désiré par celui
Dont les bras, sans mentir, peuvent dire : Aujourd'hui
Nous avons travaillé ! — C'est le soir qui soulage
Les esprits que dévore une douleur sauvage,
Le savant obstiné dont le front s'alourdit,
Et l'ouvrier courbé qui regagne son lit.
Cependant des démons malsains dans l'atmosphère
S'éveillent lourdement, comme des gens d'affaire,
Et cognent en volant les volets et l'auvent.
À travers les lueurs que tourmente le vent
La Prostitution s'allume dans les rues ;
Comme une fourmilière elle ouvre ses issues ;
Partout elle se fraye un occulte chemin,
Ainsi que l'ennemi qui tente un coup de main ;
Elle remue au sein de la cité de fange
Comme un ver qui dérobe à l'homme ce qu'il mange.
On entend çà et là les cuisines siffler,
Les théâtres glapir, les orchestres ronfler ;
Les tables d'hôte, dont le jeu fait les délices,
S'emplissent de catins et d'escrocs, leurs complices,
Et les voleurs, qui n'ont ni trêve ni merci,
Vont bientôt commencer leur travail, eux aussi,
Et forcer doucement les portes et les caisses
Pour vivre quelques jours et vêtir leurs maîtresses."

[...]

Charles Baudelaire, Le crépuscule du soir, in Les fleurs du mal (1857)- Gallimard

"Fais une croix aux quatre fronts des horizons.
Car c’est la fin des champs et c'est la fin des soirs ;
le deuil au fond des cieux tourne, comme des meules,
ses soleils noirs ;
et des larves éclosent seules
aux flancs pourris des femmes qui sont mortes.
à l'orient du pré, dans le sol rêche,
sur le cadavre épars des vieux labours,
domine là, et pour toujours,
plaque de fer clair, latte de bois froid,
la bêche."


Émile Verhaeren, Le Fléau, in 
Les campagnes hallucinées,(1895) Gallimard




Gustav Klimt. Malcesine, 1913




Foto: Flip 2020


É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nela?

Interessantíssimo artigo de autoria de um dos mais importantes pensadores brasileiros, Sergio Paulo Rouanet. Rouanet, profundo conhecedor da obra de Walter Benjamin, é o tradutor do volume I das Obras escolhidas do filósofo alemão, editados pela Brasiliense. O artigo aqui indicado foi publicado na Revista USP no. 15 (1992). Leitura altamente recomendável.





Sobre o conceito de história

Nesta data nascia em Berlim o pensador Walter Benjamin,  autor de uma das mais importantes teorias da história de todo o séc. XX. Em sua homenagem, e em sua memória, segue o link para a tradução que o pensador brasileiro Sergio Paulo Rouanet fez para as  famosas "Teses".

(Atualizado em 15/Julho/2021) 

 




Literatura e refúgio


Embora este post esteja um pouco atrasado, não será desnecessário, pois trata-se de uma interessante conversa sobre os vínculos entre a literatura e o refúgio, ocorrida exatamente no dia doa refugiados, 2/6. Recomendável! Ver também a nota publicada no site do IMS.

O centenário do pensador


Interessantes notas publicadas a propósito do centenário do grande pensador francês.

Edgar Morin – lições de um centenário (Fagner Torres de França, Eugênia Maria Dantas e Josineide Silveira de Oliveira,no site A Terra é redonda): "No entanto, ´onde cresce o perigo, cresce também aquilo salva´. Essa frase, que Morin havia lido ironicamente em um poeta alemão, Hölderlin, o ajudou a formular uma das bases mais fortes de seu pensamento: o princípio da incerteza. É preciso saber esperar o inesperado."

Edgar Morin, 100 anos (Antônio Sales Rios Neto, no site A Terra é redonda): 
“Com frequência, é preciso ser um desviante minoritário para estar no real. Embora, aparentemente, nele não haja nenhuma perspectiva, nenhuma possibilidade, nenhuma salvação, a realidade não está paralisada para sempre, ela tem seu mistério e sua incerteza. O importante é não aceitar o fato consumado” (Edgar Morin).


Cem anos de sabedoria e complexidades (Marcelo Rollemberg, Jornal da USP): “A história humana é relativamente inteligível a posteriori, mas sempre imprevisível a priori.

Cette épidémie nous apporte un festival d’incertitudes. Nous ne sommes pas sûrs de l’origine duvirus : marché insalubre de Wuhan ou laboratoire voisin, nous ne savons pas encore les mutationsque subit ou pourra subir le virus au cours de sa propagation. Nous ne savons pas quand l’épidémierégressera et si le virus demeurera endémique. Nous ne savons pas jusqu’à quand et jusqu’à quelpoint le confinement nous fera subir empêchements, restrictions, rationnement. Nous ne savons pasquelles seront les suites politiques, économiques, nationales et planétaires de restrictions apportéespar les confinements. Nous ne savons pas si nous devons en attendre du pire, du meilleur, unmélange des deux : nous allons vers de nouvelles incertitudes.” (Entrevista ao Le Monde, 7 Jul. 2021)



 

"Marinheiro das montanhas"


De uma cena do novo documentário do cineasta brasileiro (agora já é do mundo) Karim Aïnouz. Algo nesta foto me lembra uma obra do Edward Hopper. Mas preciso assistir ao filme para me certificar da minha intuição. Com um belo comentário da minha amiga Nilcea Moraleida: "Que genial! É o grande diretor do cinema brasileiro desse tempo, na minha opinião. Gosto de tudo que fez, desde o maravilhoso "Madame Satã". E como entende de mulheres, há tempos! Faz parte dessa grande geração de diretores nordestinos que trabalham em coletivo, fazendo filmes inovadores - Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Gabriel Mascaro - e NÃO são carreiristas espertos, e cheios de truques para impressionar a galera (como é usual hoje em dia). Para ver o alcance do que é capaz de construir, recomendo sempre o magnífico " Realismo Selvagem" , documentário feito e premiado na França sobre Velásquez." (Ler nota publicada no jornal Folha de São Paulo)

 

Edvard Munch, Elgersburgo, de 1905.












Edvard Munch

Do artista norueguês Edvard Munch, esta magnífica obra, Sanatorium, de 1902/03. Descobri através do Facebook um grupo dedicado ao conhecimento e divulgação da obra do grande artista norueguês Edvard Munch, um dos meus artistas preferidos, de há muito. Nestes dias alguém postou uma foto do "Sanatorium"´(1902), ao mesmo tempo emblemático e deslumbrante; mas o que não se mostra paradoxal e contraditório, nesta vida?

 

Modigliani

"Quando eu conhecer a tua alma, pintarei os teus olhos" (Modigliani). A emblemática Jeanne Hebuterne, tela pintada pelo marido Modigliani em Paris (1919).

 

Ricardo Piglia - Ler e narrar como forma de ser

Interessante matéria sobre a coletâneaq de ensaios Ricardo Piglia, The Master: lector, novelista y profesor, organizada por Raquel Fernández Cobo (Editorial Universidad de AlmeríaRicardo Piglia, “ensayista, novelista, cuentista, traductor, antólogo, profesor, intermediario; en fin, (és) imprescindible para acercarnos a la literatura como techné y como forma de vida.
 

O estado e a cidadania

 

"The intellectual problem I work through in the villages is how minds that for thousands of years have been denied the right to think independently can be taught a mode of intellectual thinking modeled on imaginative activism. I’m not lecturing students on democracy; I’m teaching them English, Bengali, arithmetic, geography—the West Bengali state curriculum. But it’s the way in which we teach these subjects that matters. One of the things I do is try to make them feel that people who are really smart don’t always answer the questions the teacher asks. If one looks at Fanon, he knows that one of the real problems in a post-colonial situation is the existence of leaders, and the aspiration to be a leader. What he’s talking about, what I’m talking about, what Gramsci was talking about, is that in the usual, everyday structure of government, like that in the United States, there is this kind of leadership complex, and that’s very harmful—it’s totally undemocratic" (Trecho de uma interssantíssima entrevista com a importante pensadora indiana contemporânea Gayatri Chakravorty Spivak) 

Jean-Michel Basquiat

"Quando surgiu em meados de 1970, o movimento Pop Art estava dando seus últimos suspiros. Chamada de ´uma arte que todo mundo faz´, no início dos anos 60, Andy Warhol fez seu nome. E lá veio Basquiat, contando outra história deste período. Conheça mais sobre esse gênio em ´Jean-Michel Basquiat´”. Na programação do Canal Curta.


 

Ângela Prysthon e a importância da crítica diária

"O episódio da vez da série ´Palavra Crítica´ é com Ângela Prysthon, que resgata os tempos áureos da crítica diária, passa pelas muitas regras e possibilidades de escrever um texto crítico e das inter-relações do texto de cinema com a filosofia, sociologia, história da arte, os momentos históricos e culturais" (Na programação semanal do Canal Curta)

 

O "desencantamento do mundo" acadêmico

Texto belíssimo da Professora Olgária Matos, a ser ratificado e grifado em cada parágrafo; sobre o qual não há discordância possível, no horizonte. Bela e ainda muito viva a lembrança da grande professora discorrendo sobre Walter Benjamin, no pequeno auditório lá do último andar do velho prédio da Faculdade de Filosofia, na Rua Carangola, nos idos anos de 1979. E as notas repousam nas páginas de um antigo caderno que hoje mora em um armário de mdf, na casa em que habito.
A crise do eros na Escola e na Universidade (Publicado no portal Outras palavras,em 05 Jul. 2021)

Os "Psiconautas", de Marcelo Leite.


Marcelo Leite, sobre o livro Psiconautas - Viagens com a ciência psicodélica brasileira” (ed. Fósforo).
Folha de São Paulo 3 Jul. 2021

Rostropovitch: J. S. Bach, Prelude Cello Suite No.1 BWV 1007

 

Leyla Perrone-Moisés relembra Cortázar e Leminski em textos de memória

"Em ´Vivos na memória´, a crítica literária conduz o leitor por aventuras intelectuais mas também por aspectos mais mundanos de figuras que a influenciaram.

A partir da próxima sexta-feira (4), chega às livrarias o novo livro da crítica literária Leyla Perrone-MoisésVivos na memória. Nos textos, a autora conduz o leitor por aventuras intelectuais mas também por aspectos mais mundanos de figuras como Samsor Flexor, Décio de Almeida Prado, Antonio Candido, Roland Barthes, Haroldo de Campos, CortázarLeminskiSaramago, Derrida, Lévi-Strauss, entre muitos outros[...]
Ela traz um olhar sobre diversas trajetórias, em contextos muitas vezes inéditos (em que se destacam a intimidade ou saborosas anedotas do cotidiano), sem prejuízo da fina análise e da verve narrativa pelas quais se tornou conhecida a grande crítica."

"As memórias são um gênero cultivado por pessoas longevas que têm muito a contar sobre suas vidas. Eu não tenho nada de especial para contar a meu respeito, mas tenho muito a contar sobre pessoas que conheci." (Leyla Perrone-Moisés. Revista Rascunho) 

Indiferença, etnocídio e genocídio

 


Um importante artigo de Flávio de Leão Bastos Pereira, publicado ontem no Le Monde Diplomatique Brasil. Foto de Andressa Zumpano (Articulação das Pastorais do Campo), na mesma publicação. Impossível não lembrar do Claude Lévi-Strauss e do Darcy Ribeiro. O que diriam eles ao verem cenas como estas documentadas pela fotógrafa, há poucos dias, na frente da Câmara Federal, em Brasília?

Poéticas das cidades 4

   Foto: Revista Prosa Verso e Arte O tempo nas cidades " O tempo pode ser encarado das mais diversas maneiras; eu, como não sou filóso...