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24.6.21

O Povo Brasileiro, o documentário



O documentário, que tem o mesmo título de um dos mais interessantes livros de Darcy Ribeiro, foi produzido no ano 2000, e dirigido por Isa Grinspum Ferraz. Está divido em 10 episódios.

Clarice Lispector entrevistou Darcy Ribeiro


 

Darcy Ribeiro (O cientista)

Entrevistado por Clarice Lispector


É autor de uma dúzia de livros sobre as desventuras dos índios desde que os brancos chegaram a este país.

Mas agora está estudando uma tribo muito especial: a dos brasileiros. (Atenção, ele já foi ministro da Educação.)
Darcy Ribeiro nasceu sob o signo do Escorpião numa cidadezinha do centro do Brasil que hoje - diz ele - só existe em seu peito: Montes Claros, Minas Gerais. Quis ser médico porém acabou antropólogo. Como tal, conseguiu uma vez um emprego que lhe proporcionou, segundo sua própria expressão, os melhores anos de sua vida. Dormia em rede nas aldeias indígenas do Amazonas. Mais tarde se tornou professor, num esforço para formar melhores antropólogos. Um dia o nomearam educador e, nessa qualidade, projetou um novo modelo de universidade para Brasília. 
Mas, afinal, o que faz um antropólogo? Há muito tempo, fiz um curso pequeno de antropologia, mas não prestei atenção nas aulas porque tinha outros interesses; os interesses de uma adolescente. Darcy Ribeiro agora me explica:
"Um antropólogo, Clarice, estuda gente. Zoólogo estuda bicho. Entomólogo estuda percevejo, suponho. Eu estudo as pessoas: gente comum e também índio, negro africano. Tudo que é gente me interessa: os brasileiros, os franceses, os xavantes, os guaranis."

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É possível misturar francês com xavante? Dá pé?
Claro que dá. O difícil é concluir alguma coisa porque não se pode tirar média. Mas tudo dá pé. Inclusive inglês com sergipano. Eu estudei índio durante anos. Depois peguei os povos americanos. Atualmente, com base naquelas experiências, estou estudando nós mesmos, os brasileiros.

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Por que você quis estudar índios?
Não há quem estude borboletas? É para saber, ora. Formei-me em São Paulo. Podia ser historiador, mas não gosto de velharias. Podia ser também sociólogo, mas naquele tempo ninguém sabia o que era isso. Não havia emprego de sociólogo. Então, apareceu um lugar de etnólogo no Serviço de Proteção aos Índios. Aceitei. Muita gente pensou que eu ia era amansar índio. Não ia, não. Fui dos primeiros brasileiros que se meteu no mato para estudar. Antigamente chamavam a gente de naturalista. Quase todos eram geólogos, botânicos e, em sua maioria, eram estrangeiros. Etnólogo mesmo, profissional e brasileiro, fui o primeiro. Contrataram-me para estudar etnologia indígena, que é apenas um ramo da antropologia. Há outros. Paleontólogos estudam fósseis de antepassados comuns dos homens e dos macacos. Raciólogos medem gente de todas as raças para descobrir-lhes as semelhanças e diferenças. Arqueólogos estudam tribos ou civilizações desaparecidas. Linguistas descrevem e comparam as línguas faladas no mundo. E os etnólogos estudam os costumes dos povos atuais. Os mais rígidos ficam só na especialidade: são fanaticamente paleontólogos, arqueólogos, etnólogos. Os mais flexíveis fazem antropologia, visando melhorar a qualidade do conhecimento que existe sobre os homens em geral.

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Você é fanático ou...
Eu sou ou... Pode ser até que eu seja um antropólogo ruim. Mas não. Modéstia à parte, não sou dos piores. Escrevi uma boa dúzia de livros. Destes, uns oito estão à venda, em cerca de 30 edições feitas no Brasil, Portugal, México, Argentina, Venezuela, Espanha, França, Itália e Alemanha.

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De que tratam esses livros? O que contam ou explicam?
Os primeiros retratam minha experiência de campo nas aldeias indígenas, tanto no Brasil Central como na Amazônia. Uns são de etnologia, propriamente. Por exemplo, meu estudo Religião e mitologia Kadiueu, uma tribo lá do Pantanal, ou Arte plumária Kaapor, uma tribo do Pará. Outros, também etnólogos, são de análise e denúncia das desventuras dos índios que toparam com os brancos. Por exemplo, Os índios e a civilização. Este livro está sendo muito traduzido por aí...

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Você chegou a conviver com os índios selvagens, nas aldeias deles?
Passei um tempão nisso. Vivi deitado em rede ou acocorado em esteira de índio, conversando, observando, anotando, pelo menos a metade dos dez melhores anos de minha vida.

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Foi tão bom assim?
Sempre que se fala de ir para os índios, para o mato, para a selva, o pessoal fica pensando em cobra, onça, malária, flechas e outros riscos. Que nada! Sei que não é um passeio, mas é uma beleza. E foi com os índios que aprendi a ser antropólogo. Assim como médico aprende a ser médico com os clientes, depois de formado. Só que nunca matei ninguém...

- Por que, então, você saiu para outra? Gostando tanto daquela vida, gostando tanto de índio, podia ter ficado na etnologia.

É. Podia. Mas o que me atazana mesmo é estudar esta tribo mais exótica e mais selvagem que somos nós, os brasileiros. Essa é a tribo que me interessa. Um dia, Anísio Teixeira me chamou para estudar a sociedade nacional, com vistas ao planejamento educacional. E eu aceitei. Não me arrependi. Promovi uma quantidade de estudos sobre a vida urbana e a rural, sobre a cultura popular, a industrialização e a urbanização. Nesse caminho, tornei-me educador. Acabei incumbido de criar a Universidade de Brasília. E criei mesmo. Mas fui adiante. Cheguei a ser ministro da Educação.

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Darcy, fale mais sobre os seus livros. Os que estão vivos por aí, correndo mundo.
Bem, os meus principais livros foram uma série chamada Estudos de antropologia da civilização. São cinco volumes e somam mais de mil páginas. Quase todos foram publicados no Brasil. O primeiro deles, O processo civilizatório, é uma tentativa de reconstituir os caminhos da evolução das civilizações, de uma perspectiva nossa, de povos marginalizados, dependentes. Seu tema é a análise das causas de nosso desempenho medíocre dentro da civilização industrial moderna e do risco, em que estamos, de continuar sendo povo de segunda classe na civilização que vem aí.

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São livros muito lidos?
Muita gente leu esse livro, Clarice. É o meu único livro de êxito popular. Venderam mais de 170 mil exemplares, em inglês, espanhol, italiano, alemão e português. Também pudera: faço um resumo de 10 mil anos de história em 200 páginas. O segundo volume daquela série é As Américas e a civilização. Um painel do processo de formação dos povos americanos. Escrevi tentando entender - e ajudar os outros a compreender - as causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Por que a América do Norte, colonizada um século depois de nós, está um século adiante em tanta coisa? E como é que povos pobres, que nem nós, podem custear a riqueza de povos ricos?

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Você está se arriscando a falar em política?
Não, é apenas antropologia. O terceiro livro da série ainda não está publicado no Brasil, embora tenha várias edições no estrangeiro. É O dilema da América Latina, um estudo da composição das classes sociais dos nossos países que serve de base a uma tipologia dos nossos regimes políticos. Tudo isso é antropologia e da boa: ciência positiva do que o homem é e especulação humanística do que poderia ser, se tivesse juízo. O quarto livro é mais ortodoxo, chama-se Os índios e a civilização. É um balanço científico e apaixonado do que sucedeu aos índios brasileiros no curso de século XX. É uma história muito feia. Eu mostro que em 1960 haviam desaparecido 87 das 230 tribos que existiam em 1900. Não por assimilação, ou incorporação, como se diz por aí, mas simplesmente extintas pelas enfermidades, pela opressão e pela pobreza a que foram e são submetidas, em nome da civilização.

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Seria melhor estudar borboletas ou colecioná-las. Ou então você poderia não ter tanto trabalho e tanta paixão e cultivar orquídeas... E o último volume?
Ainda estou batucando: Os brasileiros. Até agora só publiquei a primeira parte, chamada A teoria do Brasil. Faltam duas outras: O Brasil rústico e O Brasil emergente. Espero ter tempo (e gana) para escrever os dois. Na verdade, os outros quatro livros da série são apenas uma longuíssima introdução a Os brasileiros.

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Você não acha péssimo para nós essa história de dizer que são vivos os livros só porque estão à venda?
Acho. Mas eu vivo disso, e você também. O que nos interessa a glória que nos tributem lá pelo ano 2000? Seremos menos que pó de caveira.

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Também não me interessa nada do que a posteridade diga de mim, se é que vão dizer alguma coisa. E fora dessa série, que é que você tem publicado?
Bem, tenho alguns livros que prezo. Um é A universidade necessária. Uma utopia da universidade que tento há anos cristalizar nas diversas universidades concretas que já projetei ou reformei aí pelo mundo. Outro livro, é Uirá, uma coletânea de artigos de etnologia indígena. Inclui a história real e fantástica de um índio que saiu à procura de Deus. E acabou mal. Morto. Comido por piranhas. A história foi filmada por Gustavo Dahl.

- E seu romance Maíra? Como é que lhe veio a vontade de escrever ficção, você antropólogo conhecido, cientista lido?
Pois é, Clarice. A tentação me roía há anos. Não resisti. E gostei muito. Foi um barato meter num enredo o meu sentimento de gozo de viver e da tristeza que é ser índio neste mundo. Creio também que escrevi um romance para ser intelectual.

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Eu sou romancista e não sou intelectual...
Só os romancistas são intelectuais... Agora, como romancista, já posso dar palpite sobre qualquer coisa, saiba ou não do assunto. Romancista é assim: voz e boca do povo. Eu, você e o Antônio Callado, não é?

- Pelo menos inspiração nós temos. Ainda Bem.

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Fonte: 
LISPECTOR, Clarice. Clarice na cabeceira: jornalismo. 1º edição. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. [Originalmente publicado na Revista "Fatos e Fotos", 14 de março de 1977]
Esta e outras entrevistas realizadas por Clarice Lispector estão disponíveis em: 
 
http://www.elfikurten.com.br/2013/01/darcy-ribeiro-o-cientista-entrevistado.html

Darcy Ribeiro e a música de Bach

 

Darcy e a música de Bach

Rio de Janeiro, 1977
José Mário Pereira

Assim que voltou ao Brasil, na segunda metade dos anos 70, Darcy Ribeiro deu longa entrevista ao "Pasquim". Eu já conhecia dois livros dele, mas foi a leitura dessa entrevista que me animou a procurá-lo para uma conversa. Consegui seu telefone com o escritor Flávio Moreira da Costa.

Liguei, ele atendeu, eu disse que era estudante, que tinha lido "O Processo Civilizatório" e que gostaria de visitá-lo para conversar sobre algumas passagens que não compreendera bem. "Você leu mesmo?". Confirmei. "Então venha aqui amanhã e me traga o exemplar com as suas anotações".

No dia seguinte, por volta das 10h, toquei a campainha do apartamento no quinto andar do nº 2.536 da av. Atlântica, esquina com a rua Figueiredo Magalhães. Ele mesmo abriu a porta, com um riso que logo me deixou à vontade; indicou-me um sofá de couro, acomodou-se na poltrona ao lado, de pernas cruzadas como um iogue, e falou: "Isso aqui é o meu útero". Começava ali uma amizade que só terminaria com sua morte, em 17 de fevereiro de 1997.

Assim que nos sentamos, ele passou a me fazer perguntas, a conversa decolou e acabei convidado para almoçar. Em pouco tempo, virei pessoa da família, sendo apresentado a seus amigos como um jovem intelectual cearense. No apartamento dele, conheci Glauber Rocha, Ferreira Gullar, Mário Pedrosa, além de muitas das namoradas que teve após retornar ao Brasil.

Um dia, Darcy me pediu para ajudá-lo a arrumar os discos que tinha trazido do exterior e que estavam numa arca. Ali descobri o seu gosto por spirituals e jazz. Mais tarde, ele me falou de umas peças para violoncelo, de Bach, que escutara no Peru, na casa de uma namorada. "São uma beleza, Zé Mario! Tente encontrar. Eu gostaria de tê-las aqui comigo". Passei a procurar esses discos. Só anos depois é que me certifiquei sobre as obras de Bach a que ele se referia. Como se aproximava o seu aniversário (26 de outubro), lhe dei o CD duplo com a gravação de Pierre Fournier das sonatas e partitas para violoncelo solo. Ao receber o presente, ele correu a ouvi-lo para confirmar que se tratava do disco tão desejado, e exclamou, feliz: "Veja que beleza! É das coisas mais sublimes que já escutei na vida!". Esse CD passou a acompanhá-lo nas viagens, estava sempre na sua mala.

Já doente do câncer que o mataria, resolveu finalizar suas memórias e me pediu para lermos juntos o livro inteiro: queria que eu identificasse repetições e sugerisse uma mudança ou outra. Ele, que voltara a usar o bigode do seu tempo de antropólogo de campo, ficava deitado numa cadeira longa, e vez por outra éramos interrompidos pela enfermeira que vinha aplicar-lhe uma injeção. Darcy indagava, brincalhão: "Hoje é na bunda?". Só soube depois, pela diretora da Fundação Darcy Ribeiro, Tatiana Memória - uma de suas amigas mais próximas -, que quando ele passou mal, e teve de fazer a última viagem para Brasília, onde morreria, ainda se lembrou de pedir, em meio ao tumulto dos preparativos: "Cadê o Bach que o Zé Mario me deu? Botem na minha mala". Foi essa a música que o acompanhou no fim.

Darcy foi velado no salão nobre da Academia Brasileira de Letras. Quando lá cheguei, as primeiras pessoas com quem me deparei foram os sobrinhos dele, que não via há tempos, mas continuavam meus amigos. Um deles, Ucho, me abraçou e me apresentou à pessoa que estava a seu lado como "o filho que o Darcy escolheu".

Contive-me, emocionado, saí pela lateral, e me dirigi ao caixão. Mas então ouvi o violoncelo de Pierre Fournier tocando o Bach que eu tinha dado a ele, e que a sempre atenta Tatiana havia providenciado para a ocasião. Não aguentei, comecei a lacrimejar e tratei de ir embora. Não vi meu amigo morto.

Até hoje, sempre que ouço as sonatas e partitas para violoncelo solo, acabo me lembrando do Darcy, que, sem ser melômano inveterado, encontrava tanta paz e tanto mistério nesta obra singular do gênio de Leipzig.

Folha de São Paulo. Ilustríssima.12 Dez. 2010


J. S. Bach. Cello suites - Pierre Fournier

Retorno ao que nunca foi esquecido

 " A ciência moderna tornou obsoletas as crenças míticas. Hoje os arqueólogos apenas constatam um passado perdido. Mas a experiência do...