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19.6.23

Ensaios - André Marcio Neves Soares

E se eu nascesse humano

"Se eu nascesse uma muriçoca, por que iria querer viver muito tempo se o que faço é apenas sugar o sangue dos outros animais?

Se eu nascesse uma formiga operária, por que iria querer viver muito tempo, se meu destino seria apenas trabalhar indefinidamente e lutar sem tréguas contra eventuais invasores, em prol da comunidade?

Se eu nascesse uma abelha obreira, por que iria querer viver muito tempo, seminha função seria apenas trabalhar incessantemente construindo favos, coletando material no ambiente (pólen, água e néctar), produzindo mel e cera, alimentando a rainha e defendendo a colmeia dos ataques, inclusive, de um ser enorme, quase invencível e alienígena (o homem), que costuma roubar a produção da colônia? 

Se eu nascesse uma vaca, por que iria querer viver muito tempo, se seria obrigada a fornecer leite ao homem que me confinaria e sequer me permitiria alimentar dignamente meus filhotes?

Se eu nascesse um leão, por que iria querer viver muito tempo, neste mundo terrível em que a cada dia o território animal diminui, por causa da ganância irrefreável do homem?

Se eu nascesse um elefante, gostaria de viver menos, por causa do aumento exponencial da catástrofe climática e do enorme risco de vir a ser mutilado porcaçadores em busca do meu marfim.

Se eu nascesse um gorila, por que iria querer viver tanto quanto meu primo humano, se ele me aprisionaria em jaulas, sob o pretexto de me preservar, ou me condenaria aos confins do planeta, em razão da sua sanha indesculpável por mais terras.

Mas tendo nascido um humano, eu posso sugar o sangue dos outros. Posso obrigar um monte de iguais a trabalhar para mim, até a exaustão, sob o pretexto de beneficiar a comunidade. Posso roubar o produto do trabalho dos outros iguais que não preciso fazer trabalhar para mim. Posso colocar muitos dos iguais a mim em trabalho ininterrupto, mesmo que isso eventualmente custe o correto cuidado dos descendentes deles. Posso reivindicar mais território para apenas especular. Posso manipular a natureza sem me preocupar com os efeitos nefastos sobre o clima da terra, pois, ainda que viva bastante, a perspectiva de morrer antes que tudo acabe massageia meu consumismo egoísta. Posso, por fim, cultivar todas as terras férteis do planeta, sem qualquer intenção de promover a igualdade entre meus semelhantes,mesmo que isso cause a exaustão da fauna e da flora de um mundo lindo de morrer, mas que teve o azar de me ver nascer.  

Mas, olha, nasci humano e não quero fazer nada disso! Quero doar meu sangue, para que outros vivam. Quero minha comunidade forte, saudável e feliz através do trabalho, mas também sem ele, porque, afinal, o trabalho só tem sentido se promover o bem, a inclusão, o aprendizado e a boa vida. Quero aprender com quem sabe, para não precisar me apropriar de nada que não é meu. Quero os meus iguais, minha própria espécie, livre das correntes da ignorância, da fome e da desigualdade. Para isso, muito mais que meras vidas estéreis, secas como folhas no final da estação, é preciso dotar a minha espécie de sonhos bons, de desejos comedidos e condições decentes de sobrevivência para todos. 

Todavia, bem sei que meus desejos são incompatíveis com a sociedade humana da falsa “pós-modernidade”. Digo falsa porque estamos a retroceder no tempo, em termos das garantias básicas de civilidade intra e inter-muros em todos os países. É verdade que a humanidade nunca foi uma espécie animal em equilíbrio com a natureza, ao contrário da grande maioria de espécies que sempre habitaram nosso planeta. Mas a escalada de destruição que temosconhecimento ao longo de séculos, milênios quiçá, é de tal monta, que não basta mais querer voltar a ser humano. A cada geração nascemos menos como humanos e mais como algum tipo de híbrido, que tem entrado em simbiose com a evolução maquínica da sociedade rarefeita da vida desligada. Pois a cada geração que passa, parece que perdemos um pouco mais daconsciência do que realmente importa para sermos simplesmente felizes. Ao invés, elevamos como condição para a nossa felicidade o afeto fugaz, o brilhareco midiático, o dinheiro fácil e virtual, tudo digerido com coquetéis de psicotrópicos necessários para uma vida sem propósito.

Mas a vida tem algum propósito? É possível que para todas as espécies citadas acima a vida tenha propósito. É desnecessário enumerá-los. O maior deles é a reprodução, ou seja, a perpetuação de cada espécie. Porém, para nós nem isso mais é um propósito, na medida em que boa parte da humanidade não deseja mais ter filhos, e uma outra parte ainda tem porque é tão miserável que não consegue sequer evitar. Então, qual seria o propósito de uma espécie que não deseja mais se renovar? Atualmente, preferimos pensar em clonar a nós mesmos, para termos uma segunda vida ou, quem sabe, vida eterna. 

Ora, quem se clona a si mesmo, por enquanto, são os vírus. Assim, se eu nascesse um vírus, iria poder me infiltrar no organismo dos outros para usufruir das benesses que lá já existem. É isso que a espécie humana busca para seu futuro?"

André Márcio Neves Soares é mestre e doutorando em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL. 
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Este texto foi transcrito do do site Utopias Pós Capitalistas - Ensaios e textos libertários, disponível em.
https://utopiasposcapitalistas.com/2023/06/18/e-se-eu-nascesse-humano-andre-marcio-neves-soares/

11.11.21

Arqueologias de Fredric Jameson

 "[...] essa discussão sobre a realidade ambígua da cultura (o que quer dizer, no nosso contexto, da própria Utopia) é uma discussão ontológica.  O pressuposto é que a Utopia, que trata do futuro ou do não ser, existe apenas no presente, onde ela leva a vida relativamente débil do desejo e da fantasia. Mas isso significa não considerar o caráter anfíbio do ser e de sua temporalidade, a respeito do qual a Utopia é filosoficamente análoga ao vestígio, só que na outra ponta do tempo. A aporia do vestígio é a de pertencer ao presente e ao passado a um só tempo e, portanto, a de constituir uma mistura de ser e não ser bastante diferente da categoria tradicional de Devir e, por isso, levemente escandalosa para a Razão analítica. A Utopia, que combina o ser-ainda-não do futuro com uma existência textual no presente, é merecedora dos mesmos paradoxos arqueológicos que estamos atribuindo ao vestígio."

(Fredric JamesonArqueologias do futuro: o desejo chamado utopia e outras ficções científicas. Tradução: Carlos Pissardo. Belo Horizonte, Autêntica, 2021, 656 págs). A íntegra deste texto foi publicada no site a terra é redonda em 9 Nov. 2021 

7.1.18

Diego Manusovich

“El desarrollo tiene que ver con un mandato colectivo. Es lo que cree Troy.”
“La equidad es un bien colectivo  (dice Troy Helguera), un profesor argentino retirado que vive en un pueblo de la Patagonia y se dedica a resolver problemas complejos en todo el mundo, desde París a Odense, pasando por Tongli, una ciudad en la China, hasta Tierra del Fuego. No es fácil enfrentar asuntos como el miedo al otro, la xenofobia, la violencia en el fútbol, el desinterés por la política y la violencia contra las mujeres.” Nota sobre o escritor publicada no jornal Página 12 de hoje.

4.9.11

Antônio Abujamra e Mara Gabrilli.


A comovente e inteligente entrevista da deputada
federal Mara Gabrilli com o ator Antônio Abujamra
(Provocações), que assisti ontem à noite na TV Cultura.

28.10.08

Obama: el presidente como poeta

Leiam esta imperdível declaração de voto do escritor chileno Ariel Dorfman, publicada hoje no jornal argentino Página 12:

Por Ariel Dorfman *

La mayor revelación acerca de quién es Barack Obama me la ofreció Toni Morrison, la Premio Nobel norteamericana, durante un almuerzo a principios de este año. Estábamos en medio de las feroces primarias entre Hillary y Obama, y Toni se había abstenido hasta ese momento de anunciar su adhesión al primer candidato de origen africano-americano que tuviera la posibilidad real de ocupar la Casa Blanca. Ella era muy compinche y admiradora de Hillary y también de Bill Clinton, al que había llamado, en un controvertido artículo en el New Yorker en 1998, el primer presidente negro de este país, pese, advertía, “a su piel blanca”.

–Mañana –me dijo Toni– voy a mandarle una carta abierta a Barack Obama, contándole que, por primera vez en mi vida, es mi intención apoyar públicamente a un candidato a la presidencia, apoyarlo a él. Y no es por su raza. Esa jamás debería ser la razón de que votemos por una persona, ni tampoco para votar en contra. He hablado con Barack varias veces en las últimas semanas y siempre termina la conversación con la misma frase: “I’d like to have your endorsement. Me gustaría que me apoyaras en forma abierta”. Y yo siempre me río y le digo que lo estoy pensando. Bueno, lo he pensado bastante y ahora estoy lista.

Y Toni me miró a mí y también a Richard Ford, el gran novelista norteamericano, que almorzaba con nosotros ese mediodía.

–¿Y quieren saber por qué? Muy sencillo: porque Barack Obama es un poeta.

Un poeta.

En los meses que siguieron he retornado muchas veces a esa definición de Toni y la encuentro cada vez más sagaz. Ya había reparado yo –¿quién podría no hacerlo?– en la excepcional inteligencia de Obama, el uso sólido y sutil del inglés que despliega, especialmente cuando se comparaba con el desastre idiomático de Bush. Y nada de lo que ha sucedido a lo largo de este año electoral me ha hecho cambiar de parecer. Por el contrario, la jerigonza retórica de McCain y para qué hablar de la masacre de la lengua de Shakespeare en la boca incoherente de Sarah Palin confirman cada día más la calidad lingüística de Obama, la certeza de que estamos ante un gran artífice de las palabras. Pero, ¿poeta?

Toni no hablaba tan sólo de alguien elocuente, de alguien que amaba las palabras, es decir, que las consideraba amigas íntimas y carnales, sino de algo más: un ser humano animado por una visión trascendental, a visionary, nos dijo Toni ese domingo a fines de enero mientras atacábamos una buena merienda sureña acá, en Carolina del Norte.

Confieso que me gustó, al principio, aquella dilucidación de Toni porque ayudaba a explicar la ventaja que Obama fue paulatinamente forjando entre los votantes, su capacidad de convencer y de inspirar, la importancia de tener un candidato a la presidencia que era capaz de mover a multitudes y especialmente a los jóvenes en el país que le brindó a la humanidad un rapsoda como Walt Whitman y un primer magistrado como Abraham Lincoln.

Es sólo ahora último, ahora que parece que es casi seguro que Obama será, efectivamente, elegido presidente de esta nación, que me he puesto a profundizar en las consecuencias de que un poeta pudiera, en efecto, dirigir los destinos del país más poderoso del mundo. Es sólo ahora último que me he permitido especular, no acerca de cómo Obama ha de ganar las elecciones sino acerca de cómo habrá de gobernar. Es sólo ahora, al contemplar la exacerbada crisis que el terremoto financiero ha ido dejando atrás, que comprendo tal vez la importancia histórica de que en este preciso momento catastrófico aparezca alguien que disponga de lo que Toni llamó ese día la “imaginación creativa”.

Porque de lo que se trata es, justamente, de imaginar una alternativa a esto que llamamos realidad, esto que se nos insiste que es excesivamente complejo y vasto como para poder controlarlo. Vivimos en un mundo que se precipita hacia un desastre ecológico y moral, un mundo donde se nos viene encima un cataclismo alimentario y energético como no hemos visto en siglos, un mundo de guerras incesantes y de un terrorismo tenaz, un mundo donde las armas nucleares van a proliferar como una plaga y donde las plagas van a proliferar como si fueran átomos y electrones desenfrenados, un mundo cada vez más interconectado y cada vez más indiferente al dolor ajeno. Lo más fácil, cuando hay tanta confusión aparentemente indomable, es guarecerse en respuestas y refugios del pasado que fortalezcan la identidad más tradicional, buscar en las más oscuras catacumbas del fundamentalismo las certidumbres que el presente empecinadamente nos niega.

En condiciones tan dramáticas, la existencia de una visión poética en un líder poderoso cobra su verdadera magnitud. Porque vislumbrar las palabras múltiples y claras con que lentamente vamos entendiendo lo que nos pasa hoy es indispensable para anticipar las soluciones para los difíciles años que se aproximan. Ya lo dijo Shelley antes de morir en el mar de su exilio italiano: los poetas son los “desconocidos legisladores de la humanidad”, los que preparan con sus palabras el vocabulario en que se han de escribir las leyes más justas del mañana, los que nos señalan la urgencia de un futuro ineludiblemente diferente y definitivamente más bello.

Hay muchas posiciones que ha tomado Barack Obama con las que, por cierto, discrepo, y no me cabe duda de que durante su tenencia en la Casa Blanca quedaré desilusionado en más de una ocasión. Pero la ilusión que no estoy dispuesto a abandonar es mi creencia en la necesidad de que este presidente poeta, en la coyuntura actual de su patria, va a tener que explicarles a los hombres y mujeres de Estados Unidos las dimensiones profundas y permanentes del trastorno al que se enfrentan y que no se resuelve con cambiar tan sólo un par de políticas; mi esperanza de que les lance el desafío de que no habrá tal cambio sin la participación masiva, diaria y ojalá clarividente del pueblo norteamericano, un pueblo que hasta ahora ha mostrado en forma mayoritaria una ignorancia virulenta y obstinada ante los problemas del planeta que habitamos y gozamos y sufrimos todos.

Pero es también el norteamericano un pueblo lleno de esperanzas, un pueblo que parece haber alcanzado por fin la madurez como para reconocer que requiere de un ser insólito como Obama para salir del marasmo en que nos deja Bush, hombres y mujeres que intuyen tal vez que hace falta reinventar este país y sus sueños si han de sobrevivir a los grandes retos y combates que se avecinan. Falta por ver si esos ciudadanos van a recibir y hacer suyas las palabras alucinadas y medidas y sabias que –es mi presagio– va a regalarles Barack Obama; falta por ver si vamos a merecerlas y acompañar esas palabras desde nuestra propia poesía cotidiana.

Antes de que sea demasiado tarde.

* El último libro de Ariel Dorfman es Otros septiembres.

Adiós, Patricio Guzmán (1941-2026)!

       Foto FCEI.CHILE.CL " "Patricio Guzmán: somos lo que recordamos"