"Pensar sem corrimão". Um livro extremamente interessante.



Pare e pense´, o gatilho que fazia avançar os debates nos seminários, não traçava necessariamente um caminho linear ou progressivo acerca dos marcos que estabeleceu; sua função era outra. Pensar não promove o nosso distanciamento da realidade, mas altera nossa visão ordinária do real. O pensamento é como o vento, tira tudo do lugar, ela explicava, retomando a bela metáfora de Sócrates. Essa é sua força crítica e corrosiva: destruir opiniões, preconceitos, regulamentos, doutrinas, hábitos mentais. Por essa razão, Hannah Arendt nunca deixou de insistir: não existem pensamentos perigosos; perigoso é o próprio pensamento." 


Silvina Friera entrevista Juan Forn


A jornalista Silvina Friera (Página 12) entrevistou o jornalista, escritor, tradutor, editor e colunista argentino Juan Forn. Altamente recomendável!

O Povo Brasileiro, o documentário



O documentário, que tem o mesmo título de um dos mais interessantes livros de Darcy Ribeiro, foi produzido no ano 2000, e dirigido por Isa Grinspum Ferraz. Está divido em 10 episódios.

Clarice Lispector entrevistou Darcy Ribeiro


 

Darcy Ribeiro (O cientista)

Entrevistado por Clarice Lispector


É autor de uma dúzia de livros sobre as desventuras dos índios desde que os brancos chegaram a este país.

Mas agora está estudando uma tribo muito especial: a dos brasileiros. (Atenção, ele já foi ministro da Educação.)
Darcy Ribeiro nasceu sob o signo do Escorpião numa cidadezinha do centro do Brasil que hoje - diz ele - só existe em seu peito: Montes Claros, Minas Gerais. Quis ser médico porém acabou antropólogo. Como tal, conseguiu uma vez um emprego que lhe proporcionou, segundo sua própria expressão, os melhores anos de sua vida. Dormia em rede nas aldeias indígenas do Amazonas. Mais tarde se tornou professor, num esforço para formar melhores antropólogos. Um dia o nomearam educador e, nessa qualidade, projetou um novo modelo de universidade para Brasília. 
Mas, afinal, o que faz um antropólogo? Há muito tempo, fiz um curso pequeno de antropologia, mas não prestei atenção nas aulas porque tinha outros interesses; os interesses de uma adolescente. Darcy Ribeiro agora me explica:
"Um antropólogo, Clarice, estuda gente. Zoólogo estuda bicho. Entomólogo estuda percevejo, suponho. Eu estudo as pessoas: gente comum e também índio, negro africano. Tudo que é gente me interessa: os brasileiros, os franceses, os xavantes, os guaranis."

-
É possível misturar francês com xavante? Dá pé?
Claro que dá. O difícil é concluir alguma coisa porque não se pode tirar média. Mas tudo dá pé. Inclusive inglês com sergipano. Eu estudei índio durante anos. Depois peguei os povos americanos. Atualmente, com base naquelas experiências, estou estudando nós mesmos, os brasileiros.

-
Por que você quis estudar índios?
Não há quem estude borboletas? É para saber, ora. Formei-me em São Paulo. Podia ser historiador, mas não gosto de velharias. Podia ser também sociólogo, mas naquele tempo ninguém sabia o que era isso. Não havia emprego de sociólogo. Então, apareceu um lugar de etnólogo no Serviço de Proteção aos Índios. Aceitei. Muita gente pensou que eu ia era amansar índio. Não ia, não. Fui dos primeiros brasileiros que se meteu no mato para estudar. Antigamente chamavam a gente de naturalista. Quase todos eram geólogos, botânicos e, em sua maioria, eram estrangeiros. Etnólogo mesmo, profissional e brasileiro, fui o primeiro. Contrataram-me para estudar etnologia indígena, que é apenas um ramo da antropologia. Há outros. Paleontólogos estudam fósseis de antepassados comuns dos homens e dos macacos. Raciólogos medem gente de todas as raças para descobrir-lhes as semelhanças e diferenças. Arqueólogos estudam tribos ou civilizações desaparecidas. Linguistas descrevem e comparam as línguas faladas no mundo. E os etnólogos estudam os costumes dos povos atuais. Os mais rígidos ficam só na especialidade: são fanaticamente paleontólogos, arqueólogos, etnólogos. Os mais flexíveis fazem antropologia, visando melhorar a qualidade do conhecimento que existe sobre os homens em geral.

-
Você é fanático ou...
Eu sou ou... Pode ser até que eu seja um antropólogo ruim. Mas não. Modéstia à parte, não sou dos piores. Escrevi uma boa dúzia de livros. Destes, uns oito estão à venda, em cerca de 30 edições feitas no Brasil, Portugal, México, Argentina, Venezuela, Espanha, França, Itália e Alemanha.

-
De que tratam esses livros? O que contam ou explicam?
Os primeiros retratam minha experiência de campo nas aldeias indígenas, tanto no Brasil Central como na Amazônia. Uns são de etnologia, propriamente. Por exemplo, meu estudo Religião e mitologia Kadiueu, uma tribo lá do Pantanal, ou Arte plumária Kaapor, uma tribo do Pará. Outros, também etnólogos, são de análise e denúncia das desventuras dos índios que toparam com os brancos. Por exemplo, Os índios e a civilização. Este livro está sendo muito traduzido por aí...

-
Você chegou a conviver com os índios selvagens, nas aldeias deles?
Passei um tempão nisso. Vivi deitado em rede ou acocorado em esteira de índio, conversando, observando, anotando, pelo menos a metade dos dez melhores anos de minha vida.

-
Foi tão bom assim?
Sempre que se fala de ir para os índios, para o mato, para a selva, o pessoal fica pensando em cobra, onça, malária, flechas e outros riscos. Que nada! Sei que não é um passeio, mas é uma beleza. E foi com os índios que aprendi a ser antropólogo. Assim como médico aprende a ser médico com os clientes, depois de formado. Só que nunca matei ninguém...

- Por que, então, você saiu para outra? Gostando tanto daquela vida, gostando tanto de índio, podia ter ficado na etnologia.

É. Podia. Mas o que me atazana mesmo é estudar esta tribo mais exótica e mais selvagem que somos nós, os brasileiros. Essa é a tribo que me interessa. Um dia, Anísio Teixeira me chamou para estudar a sociedade nacional, com vistas ao planejamento educacional. E eu aceitei. Não me arrependi. Promovi uma quantidade de estudos sobre a vida urbana e a rural, sobre a cultura popular, a industrialização e a urbanização. Nesse caminho, tornei-me educador. Acabei incumbido de criar a Universidade de Brasília. E criei mesmo. Mas fui adiante. Cheguei a ser ministro da Educação.

-
Darcy, fale mais sobre os seus livros. Os que estão vivos por aí, correndo mundo.
Bem, os meus principais livros foram uma série chamada Estudos de antropologia da civilização. São cinco volumes e somam mais de mil páginas. Quase todos foram publicados no Brasil. O primeiro deles, O processo civilizatório, é uma tentativa de reconstituir os caminhos da evolução das civilizações, de uma perspectiva nossa, de povos marginalizados, dependentes. Seu tema é a análise das causas de nosso desempenho medíocre dentro da civilização industrial moderna e do risco, em que estamos, de continuar sendo povo de segunda classe na civilização que vem aí.

-
São livros muito lidos?
Muita gente leu esse livro, Clarice. É o meu único livro de êxito popular. Venderam mais de 170 mil exemplares, em inglês, espanhol, italiano, alemão e português. Também pudera: faço um resumo de 10 mil anos de história em 200 páginas. O segundo volume daquela série é As Américas e a civilização. Um painel do processo de formação dos povos americanos. Escrevi tentando entender - e ajudar os outros a compreender - as causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Por que a América do Norte, colonizada um século depois de nós, está um século adiante em tanta coisa? E como é que povos pobres, que nem nós, podem custear a riqueza de povos ricos?

-
Você está se arriscando a falar em política?
Não, é apenas antropologia. O terceiro livro da série ainda não está publicado no Brasil, embora tenha várias edições no estrangeiro. É O dilema da América Latina, um estudo da composição das classes sociais dos nossos países que serve de base a uma tipologia dos nossos regimes políticos. Tudo isso é antropologia e da boa: ciência positiva do que o homem é e especulação humanística do que poderia ser, se tivesse juízo. O quarto livro é mais ortodoxo, chama-se Os índios e a civilização. É um balanço científico e apaixonado do que sucedeu aos índios brasileiros no curso de século XX. É uma história muito feia. Eu mostro que em 1960 haviam desaparecido 87 das 230 tribos que existiam em 1900. Não por assimilação, ou incorporação, como se diz por aí, mas simplesmente extintas pelas enfermidades, pela opressão e pela pobreza a que foram e são submetidas, em nome da civilização.

-
Seria melhor estudar borboletas ou colecioná-las. Ou então você poderia não ter tanto trabalho e tanta paixão e cultivar orquídeas... E o último volume?
Ainda estou batucando: Os brasileiros. Até agora só publiquei a primeira parte, chamada A teoria do Brasil. Faltam duas outras: O Brasil rústico e O Brasil emergente. Espero ter tempo (e gana) para escrever os dois. Na verdade, os outros quatro livros da série são apenas uma longuíssima introdução a Os brasileiros.

-
Você não acha péssimo para nós essa história de dizer que são vivos os livros só porque estão à venda?
Acho. Mas eu vivo disso, e você também. O que nos interessa a glória que nos tributem lá pelo ano 2000? Seremos menos que pó de caveira.

-
Também não me interessa nada do que a posteridade diga de mim, se é que vão dizer alguma coisa. E fora dessa série, que é que você tem publicado?
Bem, tenho alguns livros que prezo. Um é A universidade necessária. Uma utopia da universidade que tento há anos cristalizar nas diversas universidades concretas que já projetei ou reformei aí pelo mundo. Outro livro, é Uirá, uma coletânea de artigos de etnologia indígena. Inclui a história real e fantástica de um índio que saiu à procura de Deus. E acabou mal. Morto. Comido por piranhas. A história foi filmada por Gustavo Dahl.

- E seu romance Maíra? Como é que lhe veio a vontade de escrever ficção, você antropólogo conhecido, cientista lido?
Pois é, Clarice. A tentação me roía há anos. Não resisti. E gostei muito. Foi um barato meter num enredo o meu sentimento de gozo de viver e da tristeza que é ser índio neste mundo. Creio também que escrevi um romance para ser intelectual.

-
Eu sou romancista e não sou intelectual...
Só os romancistas são intelectuais... Agora, como romancista, já posso dar palpite sobre qualquer coisa, saiba ou não do assunto. Romancista é assim: voz e boca do povo. Eu, você e o Antônio Callado, não é?

- Pelo menos inspiração nós temos. Ainda Bem.

_______
Fonte: 
LISPECTOR, Clarice. Clarice na cabeceira: jornalismo. 1º edição. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. [Originalmente publicado na Revista "Fatos e Fotos", 14 de março de 1977]
Esta e outras entrevistas realizadas por Clarice Lispector estão disponíveis em: 
 
http://www.elfikurten.com.br/2013/01/darcy-ribeiro-o-cientista-entrevistado.html

Darcy Ribeiro e a música de Bach

 

Darcy e a música de Bach

Rio de Janeiro, 1977
José Mário Pereira

Assim que voltou ao Brasil, na segunda metade dos anos 70, Darcy Ribeiro deu longa entrevista ao "Pasquim". Eu já conhecia dois livros dele, mas foi a leitura dessa entrevista que me animou a procurá-lo para uma conversa. Consegui seu telefone com o escritor Flávio Moreira da Costa.

Liguei, ele atendeu, eu disse que era estudante, que tinha lido "O Processo Civilizatório" e que gostaria de visitá-lo para conversar sobre algumas passagens que não compreendera bem. "Você leu mesmo?". Confirmei. "Então venha aqui amanhã e me traga o exemplar com as suas anotações".

No dia seguinte, por volta das 10h, toquei a campainha do apartamento no quinto andar do nº 2.536 da av. Atlântica, esquina com a rua Figueiredo Magalhães. Ele mesmo abriu a porta, com um riso que logo me deixou à vontade; indicou-me um sofá de couro, acomodou-se na poltrona ao lado, de pernas cruzadas como um iogue, e falou: "Isso aqui é o meu útero". Começava ali uma amizade que só terminaria com sua morte, em 17 de fevereiro de 1997.

Assim que nos sentamos, ele passou a me fazer perguntas, a conversa decolou e acabei convidado para almoçar. Em pouco tempo, virei pessoa da família, sendo apresentado a seus amigos como um jovem intelectual cearense. No apartamento dele, conheci Glauber Rocha, Ferreira Gullar, Mário Pedrosa, além de muitas das namoradas que teve após retornar ao Brasil.

Um dia, Darcy me pediu para ajudá-lo a arrumar os discos que tinha trazido do exterior e que estavam numa arca. Ali descobri o seu gosto por spirituals e jazz. Mais tarde, ele me falou de umas peças para violoncelo, de Bach, que escutara no Peru, na casa de uma namorada. "São uma beleza, Zé Mario! Tente encontrar. Eu gostaria de tê-las aqui comigo". Passei a procurar esses discos. Só anos depois é que me certifiquei sobre as obras de Bach a que ele se referia. Como se aproximava o seu aniversário (26 de outubro), lhe dei o CD duplo com a gravação de Pierre Fournier das sonatas e partitas para violoncelo solo. Ao receber o presente, ele correu a ouvi-lo para confirmar que se tratava do disco tão desejado, e exclamou, feliz: "Veja que beleza! É das coisas mais sublimes que já escutei na vida!". Esse CD passou a acompanhá-lo nas viagens, estava sempre na sua mala.

Já doente do câncer que o mataria, resolveu finalizar suas memórias e me pediu para lermos juntos o livro inteiro: queria que eu identificasse repetições e sugerisse uma mudança ou outra. Ele, que voltara a usar o bigode do seu tempo de antropólogo de campo, ficava deitado numa cadeira longa, e vez por outra éramos interrompidos pela enfermeira que vinha aplicar-lhe uma injeção. Darcy indagava, brincalhão: "Hoje é na bunda?". Só soube depois, pela diretora da Fundação Darcy Ribeiro, Tatiana Memória - uma de suas amigas mais próximas -, que quando ele passou mal, e teve de fazer a última viagem para Brasília, onde morreria, ainda se lembrou de pedir, em meio ao tumulto dos preparativos: "Cadê o Bach que o Zé Mario me deu? Botem na minha mala". Foi essa a música que o acompanhou no fim.

Darcy foi velado no salão nobre da Academia Brasileira de Letras. Quando lá cheguei, as primeiras pessoas com quem me deparei foram os sobrinhos dele, que não via há tempos, mas continuavam meus amigos. Um deles, Ucho, me abraçou e me apresentou à pessoa que estava a seu lado como "o filho que o Darcy escolheu".

Contive-me, emocionado, saí pela lateral, e me dirigi ao caixão. Mas então ouvi o violoncelo de Pierre Fournier tocando o Bach que eu tinha dado a ele, e que a sempre atenta Tatiana havia providenciado para a ocasião. Não aguentei, comecei a lacrimejar e tratei de ir embora. Não vi meu amigo morto.

Até hoje, sempre que ouço as sonatas e partitas para violoncelo solo, acabo me lembrando do Darcy, que, sem ser melômano inveterado, encontrava tanta paz e tanto mistério nesta obra singular do gênio de Leipzig.

Folha de São Paulo. Ilustríssima.12 Dez. 2010


J. S. Bach. Cello suites - Pierre Fournier

Saudades de Lévi-Strauss

 


"Saudades do Brasil é um documentário que acompanha a passagem Lévi-Strauss pelo Brasil, no início de sua carreira. Lévi-Strauss chegou ao Brasil em 1935, na segunda leva de professores europeus que vieram dar aulas na recém criada USP. Organizou com o apoio de Mário de Andrade, as famosas expedições às tribos indígenas Bororo, Kadiweu e Nambiquara, que resultaram, 15 anos depois, no livro "Tristes Trópicos", de repercussão mundial."
Direção: Maria Maia | Ano: 2005 | Duração 112 min.

Saudades do Brasil

“O creosoto com que, antes de partir em expedição, eu impregnava minhas bagagens para protegê-las das térmitas e do mofo, percebo ainda seu odor quando entreabro meus cadernos de notas. Quase indiscernível após mais de meio século, esse vestígio, no entanto, torna imediatamente presentes os cerrados e as florestas do Brasil Central, componente indissociável de outros odores, humanos, animais e vegetais, e também de sons e de cores. Pois, por mais fraco que tenha ficado, esse odor, perfume para mim, é a coisa mesma, uma parte sempre real do que vivi. Certamente porque muitos anos se passaram - o mesmo número, porém —, a fotografia já não me provoca nada de semelhante. Meus clichês não são uma parte, preservada fisicamente e como por milagre, de experiências nas quais todos os sentidos, os músculos, o cérebro achavam-se envolvidos: são apenas os indícios delas. Indícios de seres, de paisagens e de acontecimentos que sei ainda que vi e conheci; mas, após tanto tempo, nem sempre me lembro onde ou quando. Os documentos fotográficos me provam sua existência, sem testemunhar a seu favor nem torná-los sensíveis a mim.

Examinadas de novo, essas fotografias me dão a impressão de um vazio, de uma falta daquilo que a objetiva é intrinsecamente incapaz de captar. Percebo o paradoxo que há, de minha parte, em publicá-las em maior número, mais bem reproduzidas e muitas vezes enquadradas de um modo que não o permitia o formato de Tristes trópicos; como se, ao contrário do que acontece comigo, elas pudessem oferecer substância a um público, não apenas porque ele não esteve lá e deve contentar-se com esse mudo comércio de imagens, mas sobretudo porque tudo isso, revisto no local, se mostraria irreconhecível e até mesmo, sob muitos aspectos, simplesmente não existe mais.”

(Claude Lévi-Strauss. Saudades do Brasil. Trecho do Prólogo. Trad.: Paulo Naves. São Paulo: Companhia das Letras, pág. 9)


A viagem de Lévi-Strauss aos trópicos
"Na contramão da poesia épica, o etnógrafo francês desmonta em "Tristes Trópicos" a noção de viagem ao propor que a apreensão de uma cultura nova implica sua corrupção"
(Silviano Santiago - Folha de São Paulo - Mais! 10 Jul. 2000)


Um pouco da história da USP
"Com salário de 3.158 francos franceses, intermediados pelo Consulado Francês, Claude Lèvi-Strauss veio à USP em 1935, ainda jovem, com contrato para ministrar disciplinas de sociologia. Durante os poucos anos que permaneceu no Brasil, fez expedições ao interior do País e deu início aos estudos com povos indígenas. Mais tarde foi lecionar nos Estados Unidos, onde estudou os índios norte-americanos e se tornou um dos maiores etnólogos no mundo."

Sobre Roger Bastide - Maria Isaura Pereira de Queiroz


A luta Yanomami - Claudia Andujar


 

Entrevistas de Clarice: diálogos possíveis e impossíveis

 

                      
 

 Capas de Clarice na cabeceira e Entrevistas (Rocco)


Ferreira Gullar


Foto: Alaor Filho

“De volta para o Brasil, o poeta Ferreira Gullar encontra os cariocas mais agitados, mais apressados, como se não soubessem o que vai acontecer no minuto seguinte.

Sou fervente admiradora de Ferreira Gullar, desde os tempos de A luta corporal até esse escandalosamente belíssimo Poema sujo. Nossos mútuos contatos se fizeram no tempo da primeira revista Senhor, para a qual nós dois escrevíamos. Mas eu tinha um pouco de medo dele, parecia-me que, com seu extraordinário poder verbal, eu seria aniquilada. Éramos um pouco distantes um do outro, e eu desconfiava que ele rejeitava a minha “literatura”. Mas o que fazer? Nada, senão continuar a gostar do que ele escrevia e escreve. Nesta entrevista, ele me assegurou que a desconfiança antiga era errada. Aleluia! Ele esteve em minha casa. Verifiquei que, praticamente, não mudou, tem o rosto como que talhado em madeira. Madeira sensível, madeira-de-lei. É pessoa extremamente simpática e com ar de bondade.”

Clarice Lispector – Há quanto tempo você não vinha ao Brasil?
Ferreira Gullar – Há cinco anos e oito meses. Voltei no dia 10 de março deste ano.

Clarice Lispector – Que diferenças você notou entre o Rio de antes e o de agora?
Ferreira Gullar – O de hoje me parece mais frenético do que o de antes. É uma impressão um tanto subjetiva, de uma pessoa que apenas acaba de chegar. Sinto isso no comportamento das pessoas e no próprio aspecto da cidade, que parece mais um canteiro de obras. As pessoas estão mais agitadas, mais apressadas – como se não soubessem o que vai acontecer no minuto seguinte. Não há um ponto da cidade onde eu chegue e não veja buracos, terra e pedras, tudo amontoado e, às vezes, como se ali estivesse para sempre. Outra coisa que noto também é o distanciamento maior entre as classes sociais. Eu, que não tenho carro e que ando de ônibus, percebo que os usuários desses veículos são quase exclusivamente pessoas muito modestas. As outras devem estar no seu próprio carro. É uma sensação um pouco parecida com a que eu sentia em Lima, no Peru, onde o contraste social é enorme.”
Março/1977


Poema de Ferreira Gullar, por ocasião da morte de Clarice Lispector

 

Enquanto te enterravam no cemitério judeu

de São Francisco Xavier

(e o clarão de teu olhar soterrado

resistindo ainda)

o táxi corria comigo à borda da Lagoa

na direção de Botafogo

as pedras e as nuvens e as árvores

no vento

mostravam alegremente

que não dependem de nós.
(09 Dez. 1977)


O mergulho do poeta

Therezinha Mello

"A morte de Ferreira Gullar, domingo passado, me fez olhar pela janela, observar o dia nublado e pensar que alguma coisa grandiosa acabara de mudar de lugar.
A grandeza de Gullar não estava no fato de ser poeta, ensaísta, biógrafo, intelectual vanguardista, mente brilhante. Ia além de tudo isso.
Dias antes pediu à filha para levá-lo até a praia de Ipanema. Queria mergulhar. A filha teria respondido:
— Pai, acho que tem alguma outra coisa além do mar.
E ele responde:
— Ah! Então é pra lá que eu quero ir.
Estava aí sua grandiosidade. Na sabedoria de manter-se de mãos dadas com a poesia até o último instante. E ela, como era de se esperar, lhe foi fiel.
Para Ferreira Gullar a poesia “nasce do espanto”. E o que nos causa mais espanto do que a morte?
Sua resposta foi poética. Das mais genuínas. E depois dela, deve ter sido mais fácil mergulhar em paz. Deve ter sido."

https://www.capitolina.com.br/
(Ferreira Gullar morreu em 04 Dez. 2016)

 

Lições de arquitetura

No ombro do planeta (em Caracas)
Oscar depositou para sempre uma ave uma flor
ele não faz de pedra nossas casas
faz de asas.
No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(Com seu traço futuro Oscar nos ensina que o sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos com matéria dura
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
Nos ensina a viver
no que ele transfigura
no açúcar da pedra

no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve.

(1975)

 

Poema sujo

“Escrevi o Poema sujo em 1975, em Buenos Aires, depois de anos de exílio em Moscou, Santiago do Chile e Lima. Se a primeira parte do exílio foi sofrida e atordoante (só me dei conta de que minha presença em Moscou era real seis meses depois de estar vivendo lá), a última parte — queda de Allende, reencontro traumatizante com a família no Peru — foi devastadora. Transferi-me em 1974 para Buenos Aires, cidade mais acolhedora e próxima do Brasil, mas, desgraçadamente, logo a situação política se agravou, desencadeando-se a repressão às esquerdas e aos exilados. À minha volta, os amigos começaram a ser presos ou fugir. Com o passaporte vencido, não poderia sair do país, a não ser para o Paraguai ou a Bolívia, dominados por ditaduras ferozes como a nossa. Enquanto isso, a cada manhã, novos cadáveres eram encontrados próximo ao aeroporto de Ezeiza, alguns deles destroçados a dinamite. Sabia-se que agentes da ditadura brasileira tinham permissão para entrar no país e capturar exilados políticos. Sentia-me dentro de um cerco que se fechava. Decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre.” (Ferreira Gullar. “A história do poema”. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)

 

“Ferreira Gullar […] acaba de escrever um dos mais importantes poemas deste meio século, pelo menos nas línguas que eu conheço; e certamente o mais rico, generoso (e paralelamente rigoroso) e transbordante de vida de toda a literatura brasileira” (Vinicius de Moraes, “Poema sujo de vida”. In: Ferreira Gullar, Poesia completa, teatro e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008)


El arte transforma el dolor en alegria

"Sentí que ése debía ser el nombre. Sólo mucho después descubrí que lo había elegido porque quería hacer un poema que no tuviera ningún compromiso con estilos o normas que yo había adoptado antes. Era estilísticamente sucio. Por otro lado, quería hablar de todo, sin restricciones, desde mi experiencia sexual hasta la miseria y el sufrimiento del pueblo brasileño. Como si hubiera sido el rey Midas, confiaba en que todo lo que tocara se convertiría en oro."
(Entrevista de Ferreira Gullar ao jornal argentino La Nación, 01 Nov. 2008)


Diálogo possível com Millôr Fernandes


   Fotógrafo não identificado

"Não vou apresentar Millôr: quem o conhece sabe que eu teria que escrever várias páginas para apresentar uma figura tão variada em atividades e talentos. Somos amigos de longa data. Nossa entrevista decorreu fácil, sem incidentes de incompreensão. Havia confiança mútua."
...

"Clarice Lispector – Como vai você, Millôr, profundamente falando?
Millôr Fernandes – Vou profundamente, como sempre. Não sei viver de outro modo. Pago o preço."

O "Deutsches Requiem" de Borges

"Nací en Marienburg, en 1908. Dos pasiones, ahora casi olvidadas, me permitieron afrontar con valor y aun con felicidad muchos años infaustos: la música y la metafísica. No puedo mencionar a todos mis bienhechores, pero hay dos nombres que no me resigno a omitir: el de Brahms y el de Schopenhauer. También frecuenté la poesía; a esos nombres quiero juntar otro vasto nombre germánico, William Shakespeare. Antes, la teología me interesó, pero de esa fantástica disciplina (y de la fe cristiana) me desvió para siempre Schopenhauer, con razones directas; Shakespeare y Brahms, con la infinita variedad de su mundo. Sepa quien se detiene maravillado, trémulo de ternura y de gratitud, ante cualquier lugar de la obra de esos felices, que yo también me detuve ahí, yo el abominable." (Jorge Luis Borges, in El Aleph)

O conto acima (do qual postei aqui apenas um trecho)é mencionado no excelente livro de Alberto Manguel (Com Borges, Editora Âyné)

P.S.: A biblioteca onde este texto está depositado é muito boa - Recomendável uma visita

Um Requiem Alemão, op. 45, de Johannes Brahms (1833-1897)- Filarnmônica de Berlim - Regente Claudio Abbado

Buenos Aires, a cidade de Borges

Borges canta sua 'cidade de percepções'

Régis Bonvicino

"Rua desconhecida chama a atenção apenas do poeta"


"Há uma confusão entre "poético", "poesia" e "poema". As pessoas se sentem ou querem estar próximas do que se chama de "poético". O "poético" é quase sempre vago, impreciso _um espaço de despercepção. A poesia é o território onde aparecem as coisas que os desatentos não percebem.

O primeiro livro de poemas de Jorge Luis Borges, "Fervor de Buenos Aires" (1923), pode ser lido como um roteiro atento daquilo que normalmente não se vê numa cidade.

"Sombra benigna das árvores/ vento com pássaro que sobre ramos ondeia." Assim, fala da Recoleta e "de sua retórica de sombra e mármore" _que diz da "dignidade de estar morto". Rua desconhecida não chama a atenção do desatento, mas chama a do poeta: "Talvez esta hora, da tarde de prata/dê sua ternura à rua/fazendo-a tão real quanto um verso".

A vegetação parece se constituir em obsessão do escritor, que _ ao se referir à plaza San Martin_ escreve: "Todo o sentir se aquieta/sob a absolvição das árvores/jacarandás e acácias..." Elas _jacarandás e acácias_ ainda estão lá?

De que modo Borges trata um simples pátio de Buenos Aires? "Com a tarde/se cansaram as duas ou três cores do pátio/Esta noite, a lua, um claro círculo/não domina seu espaço."

Na verdade, Borges fala de um pátio. Mas do pôr-do-sol em um pátio, com lua cheia. Pátio de poucas cores etc. Tantas percepções e imagens em tão poucas linhas, às vezes passam em branco.

"Lá fora há um pôr-do-sol/prata escuro/engastado no tempo/e uma funda cidade cega/de homens que não te viram." Talvez, valesse à pena prestar a atenção nessa "cidade de percepções". (Transcrição de uma publicação do jornal Folha de São Paulo.18 Janeiro 1996)



Edgar Morin, um século

Foto: Frédéric Stucin (Libération)

"Bien sûr, je préférerais passer l’été que le Léthé», tweetait Edgar Morin, début mai, faisant référence à l’un des cinq fleuves des enfers dans la mythologie grecque, «le fleuve de l’Oubli», première étape du passage de la vie au trépas. La mort, alors que le philosophe aura 100 ans le 8 juillet et que de nombreux hommages lui seront rendus, il y pense bien sûr et il ne s’en cache pas. C’est ainsi : elle guette. Ce n’est pas une raison pour arrêter de penser et surtout de partager ses réflexions. Leçons d’un siècle de vie, qui sort cette semaine, est peut-être son dernier ouvrage (ou peut-être pas). Il aurait pu en faire un essai autocentré sur lui-même, à sa propre gloire. Il aurait pu aussi donner des conseils de manière sentencieuse, du haut de son grand âge, à tous ces petits jeunes qui ne comprennent rien. Après tout, il était déjà boomer quand les boomers n’étaient pas encore de ce monde, né à une époque où on ne donnait pas des noms aux générations mais où l’odeur de poudre des canons de la Première Guerre mondiale était dans toutes les têtes. Au contraire, fidèle à lui-même et à son éthique de la complexité, Edgar Morin retrace sa vie pour en souligner les erreurs, la difficulté de comprendre le présent et la nécessité de faire son autocritique pour réussir à vivre ensemble. Si les spécialistes de l’œuvre de l’homme n’apprendront probablement pas grand-chose, l’essai est une bonne remise en perspective de son approche transdisciplinaire et humaniste, de ses principales obsessions et «leçons», qu’il tire de lui-même et qu’il ne dispense pas comme un vieux maître d’école aigri. Le grand-père de tous les Français a un rêve secret : qu’une fois qu’il ne sera plus là, on arrive toujours (ou de nouveau ?) à s’aimer, les autres et soi-même, plutôt que de continuer piteusement sur la pente de la régression occidentale cernée par les néo-totalitarismes en gestation, notamment en Chine." (Quentin Girard." (Libération. 02 Jun. 2021)

 

 Novo livro de Edgar Morin

Lições de um Século de Vida

  


Clases de literatura - Berkeley - 1980


“Alguna vez he comparado el cuento con la noción de la esfera, la forma geométrica más perfecta en el sentido de que está totalmente cerrada en sí misma y cada uno de los infinitos puntos de su superficie son equidistantes del invisible punto central. Esa maravilla de perfección que es la esfera como figura geométrica es una imagen que me viene también cuando pienso en un cuento que me parece perfectamente logrado. Una novela no me dará jamás la idea de una esfera; me puede dar la idea de un poliedro, de una enorme estructura. En cambio el cuento tiende por autodefinición a la esfericidad, a cerrarse.” 


 

Todos los fuegos el fuego


"Todos los fuegos el fuego, es el cuarto libro de relatos del escritor argentino Julio Cortázar (Ixelles, 26 de agosto de 1914 – París, 12 de febrero de 1984). Reúne ocho cuentos de gran factura, que están entre los más valorados de su obra, entre ellos: “La autopista del sur” y “El otro cielo”.
Fue publicado en Argentina por la Editorial Sudamericana en 1966. Cuenta con numerosas reediciones.


«Todos los fuegos el fuego (1966) ofrece ocho muestras rotundas de la plenitud creadora que alcanzan los cuentos de Cortázar. Desde la exasperada metáfora de las relaciones humanas que es “La autopista del sur” hasta la maestría de “El otro cielo”, Cortázar vuelve a abrir nuevos caminos con relatos que son referencias obligada para sus lectores y para los amantes del cuento en general. “La salud de los enfermos”, “Reunión”, “La señorita Cora”, “La isla mediodía”, “Instrucciones para John Howell”, “Todos los fuegos el fuego”: una fiesta de la inteligencia, de la pasión y del genio."
Fonte: lecturalia.org)
Para ler o livro
Internet Archive


 

Conversas com Cortázar


"Com o prazer de quem senta para uma conversa com amigos, encontramos nesse livro, mais que entrevistas, as confidências e idéias trocadas entre o repórter uruguaio Ernesto González Bermejo e o escritor argentino Julio Cortázar - amigos, companheiros de exílio e camaradas na militância da vida e do ofício de escrever.

Encontramos um longo e fascinante relato da feitura do livro O Jogo da Amarelinha e do conto "O perseguidor" - as obras mais revolucionárias de Cortázar. Encontramos ainda suas impressões sobre o fantástico, os movimentos do tempo, a importância da música. Encontramos, enfim, um Cortázar terno, sólido e denso, que desejava viver tudo de forma absoluta."
Fonte: Livraria Travessa

"Esse trabalho não deu nenhum trabalho. Foi uma oportunidade privilegiada - que os leitores podem agora compartilhar - de conhecer de perto e um pouco por dentro um criador insatisfeito e perseverante, sempre derrotado e novamente sobre seus pés, fiel a um só compromisso: não ser sempre o mesmo." (Ernesto González Bermejo)

"Esse livro é uma porta aberta, uma janela escancarada: entre e converse com Julio Cortázar." (Eric Nepomuceno)

"Se Jorge Luis Borges foi o mais admirado dos escritores argentinos, Julio Cortázar (1914-84) foi certamente o mais amado, e "Conversas com Cortázar" ajuda a entender por quê.
Nas longas entrevistas concedidas ao jornalista uruguaio Ernesto González Bermejo, o autor de "Bestiário" põe em evidência todas as principais características que tornaram sua obra tão viva e afetivamente tão próxima de seus leitores: o prazer da invenção, o humor sofisticado, a aversão aos dogmas e formalidades, a concepção da literatura como jogo, a crença quase metafísica no poder transformador da linguagem."
(
Entrevistas iluminam os fantasmas do autor argentino. José Geraldo do Couto. Folha de São Paulo. Ilustrada. 05 Out. 2002). 


Sobre o cronópio Cortázar

"Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez éste lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo." (Julio Cortázar, em Valise de Cronópio)


      Julio Cortázar. Buenos Aires, dezembro/1983.
  Foto: Mario Paganetti




"Último telefonema para o Cronópio - Como Julio Cortázar mudou minha vida" 

"É o seguinte: o Cortázar faria 100 anos por esses dias, não fosse a suprema gafe de ter morrido. Isso não é coisa que se faça, sobretudo se o cara é um cronópio certificado por despeitabilíssimos institutos interplanetários de Patafísica Aplicada, Surrealismo Off-Road, Transumância à la Mode e Línguas Glíglicas, Esperânticas e Transgalácticas. E sendo que o Cortázar, inda por cima, foi egrégio diretor-presidente-em-exercício-moderado de todas essas entidades da mais ilibada e desequilibrada inexistência.

Fico imaginando as deliciosas autoironias com que Julio Cortázar haveria de brindar seus 100 anos, iniciados cartorialmente no dia 26 de agosto de 1914, mas com toda certeza tramado nove meses antes, como é praxe na espécie humana, cronópios, famas e esperanças incluídos. Pra começar, aos milhares de jornalistas do mundo todo ávidos por uma declaração sua, ele anunciaria ter baixado a categórica proibição de bolo com 100 velinhas na sua festa, em vista da alarmante quantidade de perdigotos que um ancião centenário é capaz de borrifar em cima de um bolo ao tentar soprar 100 velinhas, junto com alguma eventual prótese dentária que lhe possa escapar da boca. Sem falar no risco de um AVC por excesso de esforço expiratório lá pela sexagésima velinha, com o pobre macróbio emborcando de cara no alvo e cremoso chantilly, que lástima, tão cobiçado pelos convivas. Um trespasse do aniversariante, nessas condições, seria um duro golpe pros seus amigos, em especial suas amigas e fanzocas de época, já bem velhinhas elas também, que teriam ido à festa com alguma dificuldade locomotora para vê-lo apagar as velinhas e pra comer o bolo e se refestelar com o chantilly da cobertura, visto que depois de um certo número de décadas vividas já não há muitos prazeres na vida maiores do que bolo com cobertura de chantilly, e de graça [...]." (Reinaldo Moraes. Memórias literárias. Revista Piauí. Edição 95 - Agosto 2014)



Julio Cortázar

Primera entrevista de Julio Cortázar en televisión (1973)

Deseo de escribir!

 " Por el gusto de escribir algo: después de muchos día de silencio escritural me ha asaltado en el baño, mientras me lavaba las manos,...