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23.9.23

Cuerpo, um belo ensaio de Federico Guzman Rubio


"Más de una vez, la relación entre literatura y política se aprecia con toda claridad no en los proyectos compartidos, sino en las ausencias. Tal es el caso del cuerpo, el gran ausente de la literatura y de la política latinoamericanas hasta hace no tantos años.(In Revista Letras libres, 20 Set. 2023)

Do mesmo autor, Desesperanza, o primeiro ensaio da série Palabras latinoamericanas, publicado na mesma revista em 20 Ago. 2023. 

"Causa y consecuencia de nuestro tiempo, la desesperanza está en el aire. A través de distopías, novelas históricas y relatos de anhelos frustrados, la literatura latinoamericana la cuestiona."

19.6.23

Ensaios - André Marcio Neves Soares

E se eu nascesse humano

"Se eu nascesse uma muriçoca, por que iria querer viver muito tempo se o que faço é apenas sugar o sangue dos outros animais?

Se eu nascesse uma formiga operária, por que iria querer viver muito tempo, se meu destino seria apenas trabalhar indefinidamente e lutar sem tréguas contra eventuais invasores, em prol da comunidade?

Se eu nascesse uma abelha obreira, por que iria querer viver muito tempo, seminha função seria apenas trabalhar incessantemente construindo favos, coletando material no ambiente (pólen, água e néctar), produzindo mel e cera, alimentando a rainha e defendendo a colmeia dos ataques, inclusive, de um ser enorme, quase invencível e alienígena (o homem), que costuma roubar a produção da colônia? 

Se eu nascesse uma vaca, por que iria querer viver muito tempo, se seria obrigada a fornecer leite ao homem que me confinaria e sequer me permitiria alimentar dignamente meus filhotes?

Se eu nascesse um leão, por que iria querer viver muito tempo, neste mundo terrível em que a cada dia o território animal diminui, por causa da ganância irrefreável do homem?

Se eu nascesse um elefante, gostaria de viver menos, por causa do aumento exponencial da catástrofe climática e do enorme risco de vir a ser mutilado porcaçadores em busca do meu marfim.

Se eu nascesse um gorila, por que iria querer viver tanto quanto meu primo humano, se ele me aprisionaria em jaulas, sob o pretexto de me preservar, ou me condenaria aos confins do planeta, em razão da sua sanha indesculpável por mais terras.

Mas tendo nascido um humano, eu posso sugar o sangue dos outros. Posso obrigar um monte de iguais a trabalhar para mim, até a exaustão, sob o pretexto de beneficiar a comunidade. Posso roubar o produto do trabalho dos outros iguais que não preciso fazer trabalhar para mim. Posso colocar muitos dos iguais a mim em trabalho ininterrupto, mesmo que isso eventualmente custe o correto cuidado dos descendentes deles. Posso reivindicar mais território para apenas especular. Posso manipular a natureza sem me preocupar com os efeitos nefastos sobre o clima da terra, pois, ainda que viva bastante, a perspectiva de morrer antes que tudo acabe massageia meu consumismo egoísta. Posso, por fim, cultivar todas as terras férteis do planeta, sem qualquer intenção de promover a igualdade entre meus semelhantes,mesmo que isso cause a exaustão da fauna e da flora de um mundo lindo de morrer, mas que teve o azar de me ver nascer.  

Mas, olha, nasci humano e não quero fazer nada disso! Quero doar meu sangue, para que outros vivam. Quero minha comunidade forte, saudável e feliz através do trabalho, mas também sem ele, porque, afinal, o trabalho só tem sentido se promover o bem, a inclusão, o aprendizado e a boa vida. Quero aprender com quem sabe, para não precisar me apropriar de nada que não é meu. Quero os meus iguais, minha própria espécie, livre das correntes da ignorância, da fome e da desigualdade. Para isso, muito mais que meras vidas estéreis, secas como folhas no final da estação, é preciso dotar a minha espécie de sonhos bons, de desejos comedidos e condições decentes de sobrevivência para todos. 

Todavia, bem sei que meus desejos são incompatíveis com a sociedade humana da falsa “pós-modernidade”. Digo falsa porque estamos a retroceder no tempo, em termos das garantias básicas de civilidade intra e inter-muros em todos os países. É verdade que a humanidade nunca foi uma espécie animal em equilíbrio com a natureza, ao contrário da grande maioria de espécies que sempre habitaram nosso planeta. Mas a escalada de destruição que temosconhecimento ao longo de séculos, milênios quiçá, é de tal monta, que não basta mais querer voltar a ser humano. A cada geração nascemos menos como humanos e mais como algum tipo de híbrido, que tem entrado em simbiose com a evolução maquínica da sociedade rarefeita da vida desligada. Pois a cada geração que passa, parece que perdemos um pouco mais daconsciência do que realmente importa para sermos simplesmente felizes. Ao invés, elevamos como condição para a nossa felicidade o afeto fugaz, o brilhareco midiático, o dinheiro fácil e virtual, tudo digerido com coquetéis de psicotrópicos necessários para uma vida sem propósito.

Mas a vida tem algum propósito? É possível que para todas as espécies citadas acima a vida tenha propósito. É desnecessário enumerá-los. O maior deles é a reprodução, ou seja, a perpetuação de cada espécie. Porém, para nós nem isso mais é um propósito, na medida em que boa parte da humanidade não deseja mais ter filhos, e uma outra parte ainda tem porque é tão miserável que não consegue sequer evitar. Então, qual seria o propósito de uma espécie que não deseja mais se renovar? Atualmente, preferimos pensar em clonar a nós mesmos, para termos uma segunda vida ou, quem sabe, vida eterna. 

Ora, quem se clona a si mesmo, por enquanto, são os vírus. Assim, se eu nascesse um vírus, iria poder me infiltrar no organismo dos outros para usufruir das benesses que lá já existem. É isso que a espécie humana busca para seu futuro?"

André Márcio Neves Soares é mestre e doutorando em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL. 
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Este texto foi transcrito do do site Utopias Pós Capitalistas - Ensaios e textos libertários, disponível em.
https://utopiasposcapitalistas.com/2023/06/18/e-se-eu-nascesse-humano-andre-marcio-neves-soares/

30.12.21

Corpos dissidentes: arte, literatura e pensamento queer


O livro Corpos dissidentes - arte, literatura e pensamento queer, em edição digital, traz textos de Alessandra Hypolita Valle Silva Lopes, Bruna Fernandes Barros, Diogo da Costa Rufatto, Fábio Garcia Ribeiro, Fernando Antô­nio Siqueira Ferreira, Gustavo Henrique Sousa Assis, Jo­arle Magalhães Soares, Juliano Vasconcelos Magalhães Tavares, Luan dos Santos Silva, Lucas Diego Gonçalves da Costa, Lucia Santiago (que também assina um  ensaio visual), Luiz Lopes, Marcílio Miguel Oliveira,  Mariana Ferreira Valentin da Silva, Miguel Fernandes Pereira e Tiago Cruvinel.

Organizador: Luiz Lopes. Ilustração: Thiago Bonifácio. Projeto gráfico: Miriã Bonifácio. Revisão: André Meyerewicz. Divulgação: Lucas M.R. Faria e Vinicius Gonzaga. Coeditora: Lucia Santiago. Editor: Mário Santiago. 
ISBN 978-65-86805-09-3
Disponível para leitura on-line e download.

 

3.11.21

Por qué se escribe, Maria Zambrano

"Escribir es defender la soledad en que se está; es una acción que sólo brota desde un aislamiento efectivo, pero desde un aislamiento comunicable, en que precisamente por la lejanía de toda cosa concreta se hace posible un descubrimiento de relaciones entre ellas. Pero es una soledad que necesita ser defendida, que es lo mismo que necesitar de una justificación. El escritor defiende su soledad, mostrando lo que en ella y únicamente en ella se encuentra. Habiendo un hablar, ¿por qué el escribir?"
(Trecho do belíssimo ensaio Por qué escribir, da escritora e filósofa espanhola Maria Zambrano, publicado na revista literária el golem)

26.7.21

Por que as pessoas escrevem?

Elizabeth Lorenzotti

"Por que as pessoas escrevem? 'Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver', disse Anais Nin (1903-1977). Para a escritora francesa, trata-se de uma atividade absolutamente vital. 'Escrever deve ser uma necessidade, como o mar precisa das tempestades - é a isso que eu chamo respirar.'
E que necessidade é essa, que se impõe não apenas aos (oficialmente) eleitos pelas musas, mas a tantas pessoas comuns? Por que, em um País considerado iletrado, onde a tradição oral é maior que a escrita - e esta tem barreiras muitas vezes intransponíveis -, as pessoas tanto escrevem? Não a escritura obrigatória do trabalho, do estudo, mas aquela que quer voar, transcender. E quer seja boa ou má literatura, é uma viva expressão da individualidade. E quer seja pretensão, exorcismo, orgulho vão ou pura arte deseja chegar ao outro.
Tanta necessidade de criar por meio da palavra escrita resultou em concursos promovidos pelos mais variados setores, em editoras especializadas no autor que não tem espaço no restrito cânone da literatura oficial, em oficinas de literatura e até mesmo em escola de escritores.
Na Bienal Nestlé de Literatura, em seis concursos, de 1981 até 1997, inscreveram-se 49.342 mil pessoas. O volume de obras era de tal forma inadministrável que os organizadores, a partir do penúltimo evento, em 1994 (com 15 mil inscrições), mudaram o regulamento e o nome do evento para Prêmio Nestlé de Literatura, limitando as inscrições a obras já editadas. Em 1997, foram julgados 800 livros.
De cada concurso da Casa do Novo Autor, estabelecida há 11 anos no eixo Rio-São Paulo, participam cerca de 2 mil pessoas (e já foram realizados 110, que publicam cerca de 200 autores por edição). E há tantos outros concursos espalhados pelo País. Herança do grave e fundo sentimento português pelo ato de escrever?
´Também escrevemos para aprofundar o nosso conhecimento da vida', dizia Anais Nin, consagrada especialmente pela exploração do mundo interior feminino em seus sete volumes de diários. 'Escrevemos para aprender a falar com os outros, para testemunhar nossa viagem no labirinto; para abrir, expandir nosso mundo quando nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados.'
Escrita cotidiana - Abandonado, Raimundo Arruda Sobrinho, de 60 anos, mora no canteiro central da Rua Pedroso de Morais, esquina com a Praça Hernâni Braga, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Sentado em um banco, Raimundo fica ali, escrevendo, a maior parte do dia, todos os dias, há seis anos. Escravizado psiquicamente, como se define, diz que escreve o que precisa. 'Não quero ser lido nem quero ler ninguém', proclama, fechando rapidamente a capa que cobre seus escritos.
Para quem escreve? 'Escrevo para mim.' E o que faz com a produção de todos esses anos? 'Não interessa', rebate, ríspido. Quer saber por que tantas perguntas, é informado que se trata de uma pesquisa com pessoas que, como ele, gostam de escrever. 'Vou processar todos, então tem gente me imitando?', esbraveja.
Quando se acalma, classifica a escrita em três tipos: a vulgar ( aquela do dia-a-dia), a profissional (de jornalistas, tabeliães, etc.) e a artística (dos poetas, dos escritores). 'A minha é a escrita vulgar', diz Raimundo. Vai abrindo a capa que cobre os escritos - sim, ele quer que alguém leia - e surge uma minúscula brochura artesanal, sob o título O Condicionado. O texto, em boa caligrafia, bem construído, é o início de um ensaio sobre quanto as pessoas desconhecem a mente.
'Tudo conspira contra mim', queixa-se Raimundo. 'Para escrever, tenho de enfrentar a sonolência, a caneta que falha e a chuva.'"



Foto de autor não identificado. Seu Raimundo quando morava na Pedroso de Morais. Hoje está com a família no Mato Grosso, resgatado por uma santa alma que se comovia com ele.
(Trecho de matéria publicada no Caderno 2 de OESP, 29 Mar. 1999 - "O País dos escritores do cotidiano". Copiado do Facebook da autora)

11.7.21

Ricardo Piglia - Ler e narrar como forma de ser

Interessante matéria sobre a coletâneaq de ensaios Ricardo Piglia, The Master: lector, novelista y profesor, organizada por Raquel Fernández Cobo (Editorial Universidad de AlmeríaRicardo Piglia, “ensayista, novelista, cuentista, traductor, antólogo, profesor, intermediario; en fin, (és) imprescindible para acercarnos a la literatura como techné y como forma de vida.
 

Ah, Nicanor!

  Caminhando por aqui, despretensiosamente, me deparo com esta bela foto do grande poete chileno. Não lembro onde a obtive, mas isso será in...