Poéticas das cidades 3

    
Tentando entender o entrecruzamento do cinema com a ficção literária, encontrei esta cena bastante  emblemática em um dos episódios da série Onde está meu coração, dirigida por Noa Bressane. Sob os pés desta moça desesperada há uma cidade que não compreende o seu drama pessoal, a cidade espaço da solidão e do desespero individuais. Assistindo, aos poucos e de forma não continuada aos episódios, me senti motivado a refletir, ler, vagarosamente, o fluxo deste bem produzido drama, e esta cena foi, para mim, uma das mais marcantes. Imagem inspiradora, proporciona uma intensa vontade de escrever sobre ela.


  Cristiano Mascaro. Um lugar em São Paulo, à noite.


Estilhaços de São Paulo

Preces. Vidros e ossos partidos. Multas. Dúvidas. Uma porta que se abre. Uma mala que se fecha. Disparos. Sirenes. Dinheiro lançado da janela de um carro. Alarmes. Uma espera aflita. Um tênis novinho na sarjeta. Armas de brinquedo. Uma mulher percebendo que tem classe. Contas. Conversas importantes. Correntes e cadeados. Beijos. Caminhões de mudança. Casas de massagem. Sanduíches/refrigerantes. Resultados de exames dormindo em gavetas. Molhos de chaves. Uma poltrona que passa boiando. Fábricas extáticas. Placas de necessidade. Promessas e frituras. Um homem sobrevivendo aos ferros de seu carro. Alguém implorando pra que Jesus dê as caras. Uma bala perdida. O fim. 

(Fernando Bonassi. Folha de São Paulo. Ilustrada. 07 de julho de 2001) 


O plano diabólico da cidade
















Anteontem era um grupo de homens esburacando a avenida, de madrugada. Hoje é um só golpeando a calçada da esquina com uma picareta, fazendo subir o som de uma tarefa demente. Não, isso não é um trabalho noturno, não venham dizer que é para não perturbar o trânsito do dia, se o dia é feito para essas maçadas no caminho. Pois que seja o dia a engolir mais esse caos sobre caos, esse caos dentro de caos, e nos deixem livres as madrugadas, pelo amor dos nossos nervos, ao menos as madrugadas, para alguma paz sobrevivente, de sangue sem sobressalto, alguma bendita coincidência de silêncio fora e dentro.

Mas não. Agora querem nos tomar também esse espaço, essa chance de respiro, querem meter picaretas e britadeiras na pouca paz das nossas crônicas, e ainda mais, nos nossos sonhos, com esses monstruosos gorgolejos de buracos se abrindo. Será um plano diabólico da cidade para o nosso enervamento? Minha filha me disse outro dia: “mamãe, a cidade está brava com você”. Brava comigo, a cidade? Porque eu não gosto dos seus barulhos. Porque sim, eu me revolto, tenho vontade de gritar para que parem, que nos deixem em paz, que deixem a noite em paz, que vão todos para o olho do dia.

Porque não há razão que explique esse gorgolejar infernal de máquina enchendo o ar da avenida na madrugada. E que não cessa, noite após noite, de uma madrugada a outra. Um homem com uma picareta ou três ou quatro em torno de uma máquina pavorosa dessas, de escavar, perfurar, tremer a terra, e o ar da noite está cheio de catástrofe. É mais um prazer diabólico de estorvar, só pode ser. Um plano diabólico da cidade, para ver se aguentamos, e até onde aguentamos, entre ruas esburacadas e os barulhos de esburacar, onde mais nos refugiaremos, agora que nem as noites nos protegem. Onde?

(Mariana Ianelli. RascunhoIlustração: Alfredo Aquino)

(Atualizado em 22/Julho/2021) 

 

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Poéticas das cidades 4

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